11.30.2006

Mahabharata: Cap. 01

Introdução

Essa história me foi contada por um velho na beira do rio. Ele disse tê-la ouvida quando criança, e que sabia tudo de cabeça. Foi assim que ele começou:
- O Mahabharata é o maior poema de todos os tempos. Reúne cerca de 100 mil estrofes e equivale a 15 bíblias. Ele é a Grande História da Humanidade, nem mais, nem menos. Ele narra a longa e furiosa disputa entre os primos, os cinco Pândavas contra os cem Kauravas. – sentando-se numa rocha, prosseguiu – Alguns dizem que não passa de lenda, mas eu sei que é tão real quanto eu e você, ou talvez, até mais do que nós dois.
O velho suspirou:
- O essencial é que ele é belo, e está acima de qualquer análise. Tão cheio de contos, aventuras, todavia sem jamais perder a ação principal: vivemos o tempo da destruição. – olhando para mim, disse – Infelizmente, não há tempo para contar-lhe todas as histórias secundárias. Vamos nos prender ao fio trançado entre os dezesseis personagens principais. O importante é preservar o dharma, porque ele está no centro de tudo. E foi para inscrever o dharma no coração dos homens que Vyasa compôs esse poema.
- O que é o dharma? – indaguei.
O velho virou seus olhos em direção ao rio – O dharma é a lei que rege a ordem secreta e pessoal que cada um traz em si. Se respeitado, o dharma garante a ordem cósmica. Se destruído, ele destrói. Meu jovem, se contasse essa história a um bastão velho, ele recuperaria as folhas e as raízes. Escute-a com atenção.

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Capitulo 1 - Surge Vyasa

Um velho, coberto de lama e gravetos, cabelos e barba desgrenhados, surgiu da floresta silenciosamente, como se seu espírito vivesse em vários mundos ao mesmo tempo. Ao encontrar um menino, o velho disse.
- Me chamo Vyasa, compus um grande poema, e preciso de alguém para escrevê-lo. Podes me ajudar?
O menino respondeu – Não sei escrever. Mas senhor, do que fala teu poema?
- Fala de ti – afirmou Vyasa – Conta a história de tua raça, de teus antepassados. Se escutares com atenção, ao final, serás outro, pois é uma história pura e total, que apaga os erros, aviva a inteligência e dá longa vida.
Logo que o velho terminou de explicar sobre seu poema, Shri Ganesha em pessoa, o filho criado por Shri Parvati, apareceu diante deles. Shri Ganesha estava sorridente, sentou-se tranqüilamente no chão e disse a Vyasa:
- Ouvi dizer que procuras um escriba para o maior poema do mundo, aqui estou. – arrancou sua presa direita, molhou no tinteiro, e disse – Estou pronto.
Após uma breve pausa, Vyasa iniciou:
- Certo dia, um pescador apanhou um peixe, e dentro dele estava uma princesa, a quem chamou de Satyavati. Ela cresceu muito bela, e teve como primeiro esposo um eremita errante. Do amor de ambos nasci eu, Vyasa. Mas ele era um eremita, e precisava seguir seu caminho espiritual. Satyavati voltou para seu pai, e eu o segui como seu discípulo.


Continua: Cap. 02 - O primeiro voto