12.03.2006

Poesia: O Viajante


De onde eu vim? Que importância isso tem?
Pra vosmicê, ou pra mim.
Podia se do norte e inté do sul,
Modos que eu to sempre camiando, pra encontra meu mar azul.
Mas eu sou fio da Terra, sertanejo valente.
O meu sangue também é vremeio, como o de toda essa gente.
E assim como eles, cansado da lida.
Rodei pelo mundo, tentando de qualque modo, construi minha vida.
Muié, fios pra criá, e uns pertence poco que nos ajudasse a vive.
Mas que nada, essa seca só fez nós luta pra num morre.
Rasguei essa caatinga de ponta a ponta, andando noite e dia.
E eis que sentada na sombra, encontro Maria.
Vestida de seda e cetim, briando mais que fogueira em noite de São João.
Seu perfume cheirava jasmim, me deu água pra bebe, e ainda estendeu-me sua mão.
Tirou-me da seca, soprou minha cabeça e me ensinou a canta.
Aprumado, todo alinhado, só queria dança.
Até que num baile, vi faces vazias, de todas as cor, enrugadas do sol.
A tristeza teimou, o coração apertou, e me fez indagá:
Ó Nossa Senhora, que tanto nos acude, e nos faz querdita,
Donde ta a senhora, pra esses fios predidos pode salva?
São fios da seca, fios da lida, fios da vida
Moram por aí, de qualque idade e profissão
Perdidos vagueiam, assim como um dia fui eu, nessa imensidão.
Ao longe, o vento soprou,
e a folha tão bela, da primavera, no meu ouvido falou:
“crê no que digo, estou contigo,
abre tuas mão, estufa teu peito e põe-se a canta,
a melodia dos anjos, que toda noite te canto, na hora de irte deitá”.

Retirante de passagem
Abertura do Seminário Yuva de 2005