Resenha: Os Sertões
Essa saiu um tempo atrás na lista yuva.
Tudo que sabia sobre a Guerra de Canudos vinha do ginásio, quando aprendi que um beato maluco, que pregava contra a República, juntou um bando de sertanejos no interior do nordeste, e foi repreendido pelo exército. Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”, descreve Antônio Conselheiro como representante de uma raça atrasada, cheia de misticismo e crendice. Mas vejamos com mais cuidado:
Antônio cuidou das três irmãs e só se casou após tê-las encaminhado à vida de casada. Sua esposa tem um sério problema de muladhara. Envergonhado, Antônio se muda constantemente de cidade, até o dia em que sua esposa foge com outro. E ele desaparece. É dado como morto.
Após 10 anos, ressurgi na Bahia. Cabelos até os ombros, barba longa, olhar fulgurante. Andava sem rumo, esmolava somente para o dia, não guardava nada. Dormia no chão, ou em tábua de madeira, não aceitava cama. Sua chegada fazia com que cessassem as violas festeiras, impunha respeito. Era o Conselheiro para todas as decisões. Em pouco tempo, os primeiros fiéis o seguiram. Não os chamara. Chegavam-lhe espontâneo, felizes por atravessarem com ele as provações. Vinham rezando.
Despertou a inveja de muitos. Acusado de matar a esposa, proibiu aos fiéis que o defendessem, entregou-se. Pediu apenas para ser poupado a curiosidade do povo. Espancado sem queixar-se, ouviu ao julgamento sem pronunciar-se. Ao final, foi posto em liberdade, era inocente. Voltou para os discípulos na mesma data que havia prefixado no momento de sua prisão.
Percorreu o sertão de ponta a ponta. Passou um tempo em Chorrochó, sentado debaixo de uma árvore. À sua sombra curaram-se os doentes, e o povo começou a contar uma série de milagres. Por onde passava, deixava marcas, cemitério reconstruído, igreja reformada... do próprio livro:
“A sua entrada nos povoados, seguido pela multidão contrita, em silêncio, alevantando imagens, cruzes e bandeiras ao Divino, era solene e impressionadora. Paralisavam-se as ocupações normais. Ermavam-se as oficinas e as culturas. A população convergia para a vila onde, em compensação, avultava o movimento das feiras; e durante alguns dias, eclipsando as autoridades locais, o penitente errante e humilde monopolizava o mando, fazia-se autoridade única”.
Dos discursos, pouco se sabe. Dizem que era monossilábico, mas de frases de impacto. Falava com os olhos pro chão, mas ao levantá-los, ninguém ousava contemplá-lo. Sua pregação perturbou a igreja, foi caçado como fora da lei.
Acusado de pregar contra a República, foi perseguido com mais intensidade. Escolheu se isolar em Canudos no interior da Bahia. Canudos reunia gente da pior espécie. Euclides relata que a população de lá era a mais terrível do nordeste. Mas é difícil acreditar que essas pessoas tenham ficado após a chegada do Conselheiro. Proibiu a bebida, reabriu a igreja, trouxe consigo uma legião de fiéis. Estabeleceu a repartição do alimento e abstinência dos bens materiais. A população produzia para todos, e rezavam juntos todas as noites. Foram construídos ali 5.200 casebres, vilas inteiras vieram. Fazendeiros denunciaram a fuga dos empregados.
Conselheiro morreu junto com toda a população de Canudos que nunca se entregou, até o último “guerreiro”. Foram chacinados pela república, após quatro expedições do exército serem rechaçadas. Nunca ninguém perguntou no que acreditavam, nunca ninguém perguntou quem era aquele homem que seguiam, e porque abandonaram tudo para viverem com ele ali.
No mínimo interessante... não é mesmo?
Tudo que sabia sobre a Guerra de Canudos vinha do ginásio, quando aprendi que um beato maluco, que pregava contra a República, juntou um bando de sertanejos no interior do nordeste, e foi repreendido pelo exército. Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”, descreve Antônio Conselheiro como representante de uma raça atrasada, cheia de misticismo e crendice. Mas vejamos com mais cuidado:
Antônio cuidou das três irmãs e só se casou após tê-las encaminhado à vida de casada. Sua esposa tem um sério problema de muladhara. Envergonhado, Antônio se muda constantemente de cidade, até o dia em que sua esposa foge com outro. E ele desaparece. É dado como morto.
Após 10 anos, ressurgi na Bahia. Cabelos até os ombros, barba longa, olhar fulgurante. Andava sem rumo, esmolava somente para o dia, não guardava nada. Dormia no chão, ou em tábua de madeira, não aceitava cama. Sua chegada fazia com que cessassem as violas festeiras, impunha respeito. Era o Conselheiro para todas as decisões. Em pouco tempo, os primeiros fiéis o seguiram. Não os chamara. Chegavam-lhe espontâneo, felizes por atravessarem com ele as provações. Vinham rezando.
Despertou a inveja de muitos. Acusado de matar a esposa, proibiu aos fiéis que o defendessem, entregou-se. Pediu apenas para ser poupado a curiosidade do povo. Espancado sem queixar-se, ouviu ao julgamento sem pronunciar-se. Ao final, foi posto em liberdade, era inocente. Voltou para os discípulos na mesma data que havia prefixado no momento de sua prisão.
Percorreu o sertão de ponta a ponta. Passou um tempo em Chorrochó, sentado debaixo de uma árvore. À sua sombra curaram-se os doentes, e o povo começou a contar uma série de milagres. Por onde passava, deixava marcas, cemitério reconstruído, igreja reformada... do próprio livro:
“A sua entrada nos povoados, seguido pela multidão contrita, em silêncio, alevantando imagens, cruzes e bandeiras ao Divino, era solene e impressionadora. Paralisavam-se as ocupações normais. Ermavam-se as oficinas e as culturas. A população convergia para a vila onde, em compensação, avultava o movimento das feiras; e durante alguns dias, eclipsando as autoridades locais, o penitente errante e humilde monopolizava o mando, fazia-se autoridade única”.
Dos discursos, pouco se sabe. Dizem que era monossilábico, mas de frases de impacto. Falava com os olhos pro chão, mas ao levantá-los, ninguém ousava contemplá-lo. Sua pregação perturbou a igreja, foi caçado como fora da lei.
Acusado de pregar contra a República, foi perseguido com mais intensidade. Escolheu se isolar em Canudos no interior da Bahia. Canudos reunia gente da pior espécie. Euclides relata que a população de lá era a mais terrível do nordeste. Mas é difícil acreditar que essas pessoas tenham ficado após a chegada do Conselheiro. Proibiu a bebida, reabriu a igreja, trouxe consigo uma legião de fiéis. Estabeleceu a repartição do alimento e abstinência dos bens materiais. A população produzia para todos, e rezavam juntos todas as noites. Foram construídos ali 5.200 casebres, vilas inteiras vieram. Fazendeiros denunciaram a fuga dos empregados.
Conselheiro morreu junto com toda a população de Canudos que nunca se entregou, até o último “guerreiro”. Foram chacinados pela república, após quatro expedições do exército serem rechaçadas. Nunca ninguém perguntou no que acreditavam, nunca ninguém perguntou quem era aquele homem que seguiam, e porque abandonaram tudo para viverem com ele ali.
No mínimo interessante... não é mesmo?

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