Casa Santa

PERSONAGENS:
1- João
2- Pai de João
3- Jangadeiro
4- Matador
5- Velho Avarento
6- Ladrão
7- Sanfoneiro
8- Maria Bonita
9- Tempo
10- Coro
O Tempo entra em Cena.
Tempo: Têm coisas que o homem vê, mas não enxerga. Têm outras que ele ouve, mas não escuta. E seja pro bem ou pro mal, caminha distante do seu verdadeiro ideal. Essa estória é sobre um jovem, realizado como você, que vive no paraíso. Mas o que fazer, se isso ele não pode entender? Tem a maior das alegrias, mas acredita que seu destino é rodar o mundo, conhecer os quatro cantos da Terra, pra aí sim, ter certeza do seu tesouro. Pobre do homem é um tolo. Troca o certo pelo duvidoso, numa aventura em que o herói nunca voltou glorioso. Mas deixe estar, porque eu, o tempo estou aqui pra isso. Meu trabalho é descortinar a verdade, de uma forma ou de outra.
Sai o Tempo. Entra João.
João: Ai de mim, pobre fio desse sertão. Nasci, cresci e hei de morrer aqui, nesse pequeno pedaço de chão. Nunca tive a alegria de ver o mar ou as luzes da cidade grande. Por um lado, me calo, e peço inté perdão a Deus por falar essas coisa. Porque muita gente queria puder de ter tudo essas alegrias que eu tenho em casa, uma mãe boa e generosa, um pai justo e trabaiador. Por outro lado, apesar de conhecer a filicidade, eu só vi a que tenho em casa. Minha mãe sempre nos disse que é a maior de todas. Mas como é que eu vou saber, se eu nunca vi outra? E se um dia meus filhos pregunta se existe outras filicidade, como é que eu vou puder responder? Filicidade só se conhece sentindo. Eu vi num livro que o mundo é grande, deve de ter muita filicidade por aí. Dizem que a cidade é perigosa, que o mar come gente, mas como eu vou saber se eu nunca entrei? Eu sei que a mãezinha ta certa, e que não deve de ter alegria maior que essa aqui de casa, como nas noites de festero e seresta. Mas o que eu preciso é ir lá longe, exprimentar de tudo, e aí sim, eu vou voltar com convicção de que terra boa é isso aqui. E vou poder até de ensinar os outro que num tem coisa melhor do que aqui.
Entra o pai de João.
Pai de João: João, meu filho. Tua mãe ta chamando pra hora da oração. Vem pra modo da gente começar, menino. Seus irmão ta tudo lá reunido, só falta ocê.
João: Hoje não pai, to partindo e num dá tempo deu orar não. Até breve, se preocupe não, seu fio volta pra orar cocês, mas quando eu voltar é com muito mais força.
Pai de João: Que deu nocê menino? Vai donde? E justo na hora da reza? Tu sabe que tua mãe num gosta de travessura nessas hora.
João: Não é travessura não, meu pai. Tomei uma decisão de gente grande, perciso conhecer o mundo, exprimentar toda as coisas que o homem fez por aí, pra modo de ter certeza verdadeira de que a filicidade que nós vivi aqui é realmente a maior filicidade desse mundo.
Pai de João: Ora, e ce dúvida disso? Já fui calça curta como ocê, já exprimintei um bando de porquera por aí. Nem tudo, pruque nem tudo que o homi faz vale a pena não. Mas posso te garantir, que nada se compara a paz desse nosso pedaço de chão.
João: Eu não duvido não, meu pai. Só quero ver com meus próprios olhos.
Pai de João: E pra que? Já num vi eu mermo, e num to falando procê? Se eu já cai daquela arvore espinhenta, pra que ce vai subi nela?
João: E se eu num cair?
Pai de João: Ela num deixa de ce espinhenta. Vale a pena desce todo lanhado?
João: O sinhô nunca vai entender.
Pai de João: Entendo mesmo não. Pra mim, isso é loucura de moleque abelhudo, isso sim. E da tua mãe, tu duvida dela?
João: Num duvido nem de um nem dotro, mas ela é uma santinha. Ela vai me entender.
Pai de João: Um bezerro desmamado que foge do pasto, isso num tem mãe que entenda, não. E João, meu filho, ocê vai te coragem de nos deixar?
João: Num to deixando não, meu pai. Quando eu voltar o sinhô vai me entender, inté.
João sai de cena.
Pai de João: Vai minino, as pernas são tuas, e eu num vo te amarrar. Não porque eu não queira, pruque por mim eu dava-lhe umas boas correadas. Mas tua mãe cria os filhos com amor, e não pela cinta. Mas fique sabendo duma coisa, o tempo ensina, e ele é professor exigente. Tu ainda volta, mas quando voltar, muita coisa vai ter mudado. Teus irmãos mais novos vão ser belos semeadores, cheios de vida, e tu um velho pedinte, um ignorante que rodou o mundo e não aprendeu nada de valor. Pruque foi atrás do tesouro que já tem em casa. Mas se preocupe não, tu vai ser bem recebido de volta, nosso amor por ti vai continuar enorme. Agora, tuas contas tu vai acerta, e não é comigo nem com a minha cinta, antes fosse. Vai ser direto com a tua mãe.
Pai de João sai de cena.
Continua amanhã...

1 Comments:
Nossa Daniel!!! Tá bem legal a história. Amanhã passarei por aqui de novo.
Abraço.
Arthur
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