Casa Santa: Cap 2
Jangadeiro entra em cena.
Jangadeiro: Acho que to vendo terra, acho que to. O companheiro aí adiante, tem porto aí pra eu atraca minha jangada?
João: Porto? O sinhô ta em terra firme.
Jangadeiro: É cego como os outros. Companheiro, já me disseram isso, mas eu num vo disisti. Só atraco minha jangada quando chega na praia de mar azul. E pra isso, já rodei esse marzão todo.
João: E ainda num acho a tal da praia?
Jangadeiro: Ainda não.
João: Mas se o sinhô já rodou o mundo todo, e inda num encontro é pruque essa praia azul num existe.
Jangadeiro: Num fale besteria minino, ainda num encontrei, mas vo encontra.
João: E o sinhô podia me dizer se o mundo é grande
Jangadeiro: É enorme companheiro, cheio de esquisitice. Vi homi morando em cubo de gelo, e camarada cumendo com dois palito. Ocê num sabe, mas eu to rodando faz tempo. Deixei a muié, mas meus dois minino, e prometi vorta só quando achasse minha praia.
João: Eu também acabei de sair de casa, deixei pai, mãe e irmãos pra conhecer otras filicidades por aí.
Jangadeiro: Companheiro, qué um conselho de lobo veio do mar? Se tu ainda sabe o caminho, vorta pra casa qui é bem mió. Se eu pudesse fazia o mesmo, o pobrema é que eu perdi o caminho faz tempo. E agora, eu fico rodando, rodando e num posso para. Otras filicidades esse mundo tem sim, mas eu posso te garantir, que nenhuma é tão boa quanto a que eu tinha em casa. O cheiro da comida na panela, a rede dispois do armoço, o disco na vitrola... se eu fosse ocê disistia.
João: Disistir? Mas e a vontade de alcançar o meu sonho?
Jangadeiro: Companheiro, sonho é bom pra quem vivi drumindo. Pra que sonhar, se a vida acordado é bem mió? Inté, companheiro, e boa sorte na sua escolha.
Jangadeiro sai. Matador entra em cena.
Matador: O rapazinho pensa que vai adonde?
João: Desculpe, eu conheço o sinhô?
Matador: Mas ora que o moleque é cheio de atrevimento, ta querendo parti mais cedo. Primeiro ocê se apresenta e diz o rumo, dispois eu dicido se te encho ou não de chumbo. Pois saiba que deu o azar de cair no caminho de Raimundo Matador.
João: Meu nome é João, e não quero cria atrevimento não sinhô. Tô em busca de otras filicidades diferentes das que eu tinha em casa.
Matador: Filicidades? Se tinha em casa entonce saiu de lá pruquê? Nesse mundo, filicidade num é capim não moleque, que cresce em qualquer canto. Aqui fora só tem alegria de acordo. Ocê me paga um tanto, eu não te mato, nos fecha um acordo e fica tudo alegre.
João: Tenho dinheiro não sinhô.
Matador: Assim tu ta tirando a minha alegria. Meu fio, como ocê qué encontra filicidade sem dinheiro? To vendo que ocê num vale nem o preço da bala, docê a natureza mermo da cabo.
João: Mas lá em casa nos era feliz com dinheiro poco.
Matador: Mas isso era na sua casa, infiliz. Na rua não. Mas o menos na tua idade, larguei a porquera que era lá em casa, e decidi cê filiz também. Mas só encontrei alegria de acordo. Os amigo era de acordo, a muié era de acordo. Inté o dia que ela dicidiu fazê acordo com outro cabra, daí eu me tornei matador. E agora faço acordo com os coroné da região. Filicidade num dá não, mas rende uma alegria e tanto. Nunca farta amigo, nem muié. Mas deixemos de proza. Ocê hoje teve sorte, tô ocupado atrás dum cabra safado que roubou coroné Firmino e num vô perde meu tempo com muleque de bolso vazio. Vorta pra casa minino, que outro matador pode num te da essa colé de chá.
Matador sai de cena.
Continua amanhã...
Jangadeiro: Acho que to vendo terra, acho que to. O companheiro aí adiante, tem porto aí pra eu atraca minha jangada?
João: Porto? O sinhô ta em terra firme.
Jangadeiro: É cego como os outros. Companheiro, já me disseram isso, mas eu num vo disisti. Só atraco minha jangada quando chega na praia de mar azul. E pra isso, já rodei esse marzão todo.
João: E ainda num acho a tal da praia?
Jangadeiro: Ainda não.
João: Mas se o sinhô já rodou o mundo todo, e inda num encontro é pruque essa praia azul num existe.
Jangadeiro: Num fale besteria minino, ainda num encontrei, mas vo encontra.
João: E o sinhô podia me dizer se o mundo é grande
Jangadeiro: É enorme companheiro, cheio de esquisitice. Vi homi morando em cubo de gelo, e camarada cumendo com dois palito. Ocê num sabe, mas eu to rodando faz tempo. Deixei a muié, mas meus dois minino, e prometi vorta só quando achasse minha praia.
João: Eu também acabei de sair de casa, deixei pai, mãe e irmãos pra conhecer otras filicidades por aí.
Jangadeiro: Companheiro, qué um conselho de lobo veio do mar? Se tu ainda sabe o caminho, vorta pra casa qui é bem mió. Se eu pudesse fazia o mesmo, o pobrema é que eu perdi o caminho faz tempo. E agora, eu fico rodando, rodando e num posso para. Otras filicidades esse mundo tem sim, mas eu posso te garantir, que nenhuma é tão boa quanto a que eu tinha em casa. O cheiro da comida na panela, a rede dispois do armoço, o disco na vitrola... se eu fosse ocê disistia.
João: Disistir? Mas e a vontade de alcançar o meu sonho?
Jangadeiro: Companheiro, sonho é bom pra quem vivi drumindo. Pra que sonhar, se a vida acordado é bem mió? Inté, companheiro, e boa sorte na sua escolha.
Jangadeiro sai. Matador entra em cena.
Matador: O rapazinho pensa que vai adonde?
João: Desculpe, eu conheço o sinhô?
Matador: Mas ora que o moleque é cheio de atrevimento, ta querendo parti mais cedo. Primeiro ocê se apresenta e diz o rumo, dispois eu dicido se te encho ou não de chumbo. Pois saiba que deu o azar de cair no caminho de Raimundo Matador.
João: Meu nome é João, e não quero cria atrevimento não sinhô. Tô em busca de otras filicidades diferentes das que eu tinha em casa.
Matador: Filicidades? Se tinha em casa entonce saiu de lá pruquê? Nesse mundo, filicidade num é capim não moleque, que cresce em qualquer canto. Aqui fora só tem alegria de acordo. Ocê me paga um tanto, eu não te mato, nos fecha um acordo e fica tudo alegre.
João: Tenho dinheiro não sinhô.
Matador: Assim tu ta tirando a minha alegria. Meu fio, como ocê qué encontra filicidade sem dinheiro? To vendo que ocê num vale nem o preço da bala, docê a natureza mermo da cabo.
João: Mas lá em casa nos era feliz com dinheiro poco.
Matador: Mas isso era na sua casa, infiliz. Na rua não. Mas o menos na tua idade, larguei a porquera que era lá em casa, e decidi cê filiz também. Mas só encontrei alegria de acordo. Os amigo era de acordo, a muié era de acordo. Inté o dia que ela dicidiu fazê acordo com outro cabra, daí eu me tornei matador. E agora faço acordo com os coroné da região. Filicidade num dá não, mas rende uma alegria e tanto. Nunca farta amigo, nem muié. Mas deixemos de proza. Ocê hoje teve sorte, tô ocupado atrás dum cabra safado que roubou coroné Firmino e num vô perde meu tempo com muleque de bolso vazio. Vorta pra casa minino, que outro matador pode num te da essa colé de chá.
Matador sai de cena.
Continua amanhã...

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