12.12.2006

Casa Santa: Cap 3

Velho Avarento está num canto do palco gemendo.
Avarento: Ai de mim, meu Deus, ai de mim, pobre devoto. Cuida desse homi, nos seus últimos momentos de vida, enquanto tenho poder sobre o que é meu, e posso suplicar-te por tua proteção. Ai de mim, meu Deus, ai de mim.
João: O sinhô ta passando mal? O sinhô ta carecendo de ajuda?
Avarento: Quanto ocê cobra pra ajudar?
João: Pra ajudar?! Nada ué. É ajuda.
Avarento: Nada?! Ai de mim, meu bom Deus, ai de mim. Mandaste por misericórdia um anjo celeste, ou então dei sorte, e me encontro diante de uma besta quadrada. O minino faz o que da vida?
João: Ando o mundo atrás de alguma filicidade?
Avarento: Sei. Estou muito doente, e em breve partirei desta pra melhor. Mas tenho medo. Sempre andei muito preso a esse mundo de posses, tenho receio de como será a vida do outro lado.
João: Isso só quem foi que pode dizer.
Avarento: Pois então, te pago uma boa quantia pra ir na frente, e voltar pra me contar como é a terra do pé junto. Quantia boa mesmo, metade na ida, e metade na volta, mas precisa me dizer se lá eu posso levar a minha riqueza. E quem sabe você num encontra felicidade por lá.
João: Sai pra lá, véio avarento nojento. Onde já se viu vortá do mundo dos mortos?
Avarento: Ai de mim, meu Deus tirano, ai de mim. Não há homi nesse mundo que queria ajudar um velho moribundo e doente. Ofereço aquilo que mais amo, parte da minha riqueza, mas ainda assim, eles recusam. Será possível que meus fios, aquela corja de abutres famintos, tenham envenenado o mundo contra mim. Sim, tenho certeza. Todos devem estar esperando meu fim, para repartir o que melhor vai sobrar do véio, o ouro. Pois saibam que nada há de sobrar, vou esconder tudo debaixo da roupa, e levarei comigo o que é meu, fruto do meu trabaio, do meu sacrifício, seja para o céu, ou para o inferno. Xispa moleque, anda que de ti não careço de mais nada, e fica sabendo duma coisa, vivi longos anos e pela minha experiência posso te dizer, filicidade não existe. Nem com a minha pequena fortuna, que tanto prezo, sou feliz. Na verdade, ela me afasta de todos. Anda, vai te embora daqui, antes que te envenes desse ouro, que é lindo e precioso, mas é meu.
João sai andando.
Continua amanhã...