12.15.2006

Casa Santa: Cap 6

Matador entra em cena.
Matador: Mas ora, senão é o pequeno sonhador. Já encontrou algo de bom?
João: Continuo buscando.
Matador: Tá variando. Caso perdido. Mas diga lá, viste um ladrãozinho chulerento, feio feito o cão e magro feito minhoca? Porque o cheiro eu mesmo cafunguei.
João: Vi sim, foi por aqueles lados, mas não está caminhando não.
Matador: Como assim? O gatuno agora voa?
João: Digamos que morto não anda, é tudo que eu posso dizer. Não sou bocudo pra delatar os outros.
Matador: Pois está bom demais. Morto ou vivo, eu acho e encho de bala. Inté sonhador.
Matador sai de cena. Entra o sanfoneiro.
Sanfoneiro: Não pode ser. Que vejo aqui? Tristeza?! Melancolia?! Está na hora de transformar isso tudo em alegria. Vamos lá meu fio, felicidade.
João: Felicidade?!
Sanfoneiro: Isso mesmo, felicidade. É o forró do São João.
O sanfoneiro toca e começa a festa. João dança com Maria Bonita e ela dança com outros vaqueiros. Todos passam dançando e vão embora.
João: Mas onde? Cadê ela? Cadê a festa?
Sanfoneiro: Tudo que é bom acaba, meu fio. O sanfoneiro toca bem mas tem que descansar, acabou a comida, acabou a bebida, acabou a festa.
João: E a Maria Bonita? Onde ela está?
Sanfoneiro: Foi embora.
João: E nosso amor verdadeiro, e a nossa alegria tão pura?
Sanfoneiro: Acabou. Mas ligue não, no próximo rastapé tu arruma outra Maria.
João: Mas como assim? Por que tem que acabar se foi tão bom?
Sanfoneiro: Sei não, só sei que é assim. Essas moreninhas são namoradeiras. Simbora seu minino. Amanhã tem outra festa pra nós animá, e lá eu te apresento a fia do coroné, uma belezura. Daí ocê vai ficar alegre de novo.
João: Não, eu tô confuso. Pra mim, a alegria não devia de ter fim...
Sanfoneiro: O mundo não fui eu que criei seu minino, mas ele cheio dessas duplicências, dia e noite, homi e muié, feio e bonito... alegria e tristeza. Pruquê? Sei não, só sei que é assim. A nós, que tamô nessa seca, só cabe rogar a Deus e esperar a próxima chuvarada. Quando tem festa, nós dança alegre, quando tá triste, nos entristece. Não existe outra solução.
João: Existe sim, minha mãezinha ensinava nós a tá sempre alegre. Mas eu duvidei e resolvi sair de casa pra encontra outras maneras de ser feliz. Depois de tanto tempo na estrada, a única filicidade que conheço vai imbora, é passageira. Me escapa como um passarinho fujão. Acho que nunca mais vou pudê de ouvi aquelas risadas gostosas que tinha lá em casa. Tô perdido.
Concluí amanhã...