2.08.2007

O Louco: Cap.IV

A sala é espaçosa, os móveis novos, mas ainda assim, fotos, recortes de jornal e anotações corrompem o ambiente. O único local imaculado é um canto da estante, decorado com troféus e diplomas. Selma está deitada no chão sobre toda aquela papelada, falando ao telefone.
- A descrição bate perfeitamente, ninguém sabe nada sobre ele. E esse é o tipo do local perfeito pra se esconder, um cortiço da pior qualidade, só um louco moraria aqui.
- Obrigada André.
Ela desliga o telefone, procura articular os pensamentos, pega um diário desmantelado. O homem mais sábio da terra a levou até o quarto dele, e a entregou o diário.
- Fique à vontade. Ele lembrava a senhorita, não era de falar muito. Em compensação escrevia bastante. – disse o velho cego – Antes de cometer a loucura de fugir daqui, ele me deu de presente esse diário. Tem coisas extraordinárias aí.
Selma pega o diário e se senta numa cadeira esquecida no canto do pequeno quarto. O velho boceja, e deita na cama.
- Provavelmente ele veio pra cá pelo mesmo motivo que muitos de nós.
- Qual é o motivo do senhor? – indagou Selma.
- Meu pai queria que eu fosse advogado, minha mãe, um médico. Meu irmão, um atleta, queria que seguisse o caminho dos esportes. Minha irmã desejava ver-me um destemido marinheiro, como era seu namorado. Então vim pra cá ser eu mesmo. E a senhora? Veio por que motivo?
- Não, eu não sou paciente daqui. – disse Selma sorrindo.
- Ah, então a senhora vem do outro lado da muralha, onde vivem os loucos.