2.09.2007

O Louco: Cap.V

O velho ronca levemente. Com o diário do Louco nas mãos, Selma folheia algumas páginas. Até se deparar com um pequeno conto.

Na calada da noite, enquanto eu estava semi-adormecido, meus sete eus sentaram-se em roda e começaram a sussurrar entre si.
Primeiro eu: Moro aqui neste louco há anos, sem nada para fazer além de renovar seu sofrimento e recriar sua dor à noite. Não agüento mais essa sina, vou me rebelar.
Segundo homem: Sua sorte é melhor que a minha, irmão, pois cabe a mim ser o Eu alegre deste louco. Rio suas risadas, canto suas horas felizes e com pés velozes como asas danço seus pensamentos mais brilhantes. Eu é que devia me rebelar contra minha existência cansativa.
Terceiro eu: E eu, então, o eu do amor, o ramo flamejante da paixão desenfreada e dos desejos fantásticos? Cabe Amim, o Eu doente de amor, rebelar-se contra este louco.
Quarto eu: Entre todos vocês, sou o mais desgraçado, pois nada me foi dado além do ódio raivoso e do desejo de destruir. Cabe a mim, nascido nas cavernas sombrias do inferno, protestar por servir a este louco.
Quinto eu: Não, cabe a mim, o Eu racional, ou Eu fantasioso, o Eu da fome e da sede, aquele condenado a vagar sem descanso em busca de coisas desconhecidas e de coisas ainda não criadas. Sou Eu, e não vocês, que deve se rebelar.
O sexto eu – E quanto a mim, o Eu trabalhador, pobre operário, que com mãos pacientes e olhos aflitos transforma os dias em imagens e dá formas novas e eternas aos elementos informes. Sou Eu, o Eu solitário, que deve se rebelar contra este louco incansável.
Sétimo eu – Que estranho vocês todos quererem se rebelar contra este homem, uma vez que todos vocês têm um destino predeterminado a cumprir. Ah! Se Eu pudesse ser como um de vocês, um Eu com um destino marcado! Mas não, não tenho nada, sou o Eu que não faz nada, o Eu que fica no nada vazio e mudo, o nada de antes e depois do tempo, enquanto vocês estão ocupados recriando a vida. Quem é que deve se rebelar, amigos, vocês ou Eu?
Todos os seis olharam para ele com pena, mas não disseram mais nada; e, à medida que a noite se fazia mais profunda, um após outro foram dormir, resignados e aliviados. Mas o sétimo Eu continuou acordado, contemplando o nada que está além de todas as coisas.

O delegado bate o telefone e desperta Selma de seus pensamentos distantes.