2.11.2007

O Louco: Cap.VII

Selma atravessa a rua correndo. Abre a porta do cortiço, ela range como um aviso natural da chegada de um intruso pouco acostumado com o seu modo de se comportar. A mão puxa instintivamente a arma da cintura.
O local parece abandonado, os forros desabaram, não tem portas ou móveis nos cômodos do primeiro andar. Pelo contrário, há bastante lixo aonde quer que os olhos possam discernir naquela escuridão.
O Louco está num velho cômodo, sentado numa pequena mesa comida pelos cupins, e num banco de metal enferrujado. Ainda assim, ele escreve tranqüilamente no seu diário.

Tem gente que me pergunta como foi que enlouqueci. Foi assim...
...certo dia, muito antes dos deuses nascerem, acordei de um longo sono e descobri que minhas máscaras tinham sido roubadas. As sete máscaras que eu tinha feito e usado em sete vidas. Saí correndo sem máscara alguma pelas ruas apinhadas de gente, gritando: Ladrões, ladrões, malditos ladrões!
A maioria ria, apenas alguns correram para casa com medo de mim. Quando cheguei à praça, uma senhora no terraço de uma casa gritou: É um louco!
Ergui os olhos vê-la e o sol beijou meu rosto nu pela primeira vez. Pela primeira vez, contemplei o universo, minha alma se inflamou de amor, e não quis mais saber de máscaras. Gritei como se estivesse em transe: Abençoados, abençoados os ladrões que roubaram minhas máscaras!
Foi assim que enlouqueci.