4.12.2007

Casamento: o poder do mito III

Moyers: Então o casamento é intrinsecamente incompatível com a idéia de cada um cuidar dos próprios interesses.
Campbell: Não se trata simplesmente dos próprios interesses, como você vê. De certa maneira, sim, cada um cuida dos próprios interesses, mas acontece que esse um não é apenas você, é a díade reunida em um. Eis aí uma imagem genuinamente mitológica, significando o sacrifício de uma entidade visível em nome de um deus transcendente. Isso é algo que se torna maravilhosamente consciente no segundo estágio do matrimônio, que eu chamo de estágio alquímico - os dois vivendo a experiência de serem um. Se continuarem vivendo como viviam no primeiro estágio do casamento, eles se separarão quando as crianças os deixarem. O papai se apaixonará por alguma garotinha casadoura, cairá fora, e a mamãe se verá a sós com uma casa e um coração vazios, e terá de resolver a coisa por si mesma, com seus próprios recursos.
Moyers: É por isso que não entendemos os dois níveis de casamento.
Campbell: Vocês não assumem um compromisso.
Moyers: Supostamente, sim - assumimos um compromisso para o melhor e para o pior.
Campbell: São vestígios de um ritual.
Moyers: E o ritual perdeu sua força. O ritual, que antes representava uma realidade profunda virou mera formalidade. E isso é verdade nos rituais coletivos assim como nos rituais pessoais, relativos a casamento e religião.
Campbell: Quantas pessoas, antes do casamento, recebem um adequado preparo espiritual sobre o que o casamento significa? Você pode ficar parado diante do juiz e se casar, em dez minutos. A cerimônia de casamento na Índia dura três dias. O par fica grudado.
Moyers: Você está dizendo que o casamento não é apenas um arranjo social, mas um exercício espiritual.
Campbell: É primordialmente um exercício espiritual, e a sociedade deveria nos ajudar a tomar consciência disso. (...)

4.10.2007

Casamento: Poder do mito II

Moyers: Então a função necessária do casamento, perpetuar a espécie, não é primordial?
Campbell: Não, isso na verdade é apenas o aspecto elementar do casamento. Há dois estágios completamente diferentes no casamento. Primeiro, quando os nubentes são jovens e seguem o maravilhoso impulso concedido pela natureza, da inter-relação biológica dos sexos, para produzir crianças. Mas chega um tempo em que a criança se emancipa da família e o casal é deixado para trás. Espanta-me o número de amigos que se separam aos quarenta ou aos cinqüenta anos de idade. Tinham vivido até aí uma vida perfeitamente satisfatória, juntos, com a criança, mas interpretavam essa união através da criança. Não a interpretavam em termos do próprio relacionamento pessoal, de um para com o outro.
Casamento é uma relação. Quando vocês se sacrificam no casamento, o sacrifício não é feito em nome de um ou de outro, mas em nome da unidade na relação. A imagem chinesa do Tao, com a treva e a luz interagindo, mostra relação entre yang e yin, masculino e feminino, e é isso que vem a ser o casamento. É nisso que vocês se tornam quando se casam. Você deixa de ser aquele um, solitário; sua identidade passa a estar na relação. O casamento não é um simples caso de amor, é uma provação, e a provação é o sacrifício do ego em benefício da relação por meio da qual dois se tornam um.
Continua...

4.09.2007

Casamento: o poder do mito


Este trecho foi retirado do livro O Poder do Mito (1988, Ed. Palas Athena). Uma extensa conversa entre o estudioso em mitologia Joseph Campbell e o jornalista Bill Moyers. O entendimento de Campbell sobre o casamento é extremamente interessante. É mental, mas bastante explicativo, e quem sabe pode auxiliar de alguma forma a vivenciar o espiritual.
(...)
Campbell: Mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana.
Moyers: Aquilo que somos capazes de conhecer e experimentar interiormente?
Campbell: Sim.
Moyers: Você mudou a definição de mito, de busca de sentido para experiência de sentido.
Campbell: Experiência de vida. A mente se ocupa do sentido. (...)
Moyers: Como chegar a essa experiência?
Campbell: Lendo mitos. (...) O mito o ajuda a colocar a sua mente em contato com essa experiência de estar vivo. Ele lhe diz o que a experiência é. Casamento por exemplo. O que é o casamento? O mito lhe dirá o que é o casamento. É a reunião da díade separada. Originariamente, vocês eram um. Vocês agora são dois, no mundo, mas o casamento não é senão o reconhecimento da identidade espiritual. É diferente de um caso de amor, não tem nada a ver com isso. É outro plano mitológico de experiência. Quando as pessoas se casam porque pensam que se trata de um caso amoroso duradouro, divorciam-se logo, porque todos os casos de amor terminam em decepção. Mas o matrimônio é o reconhecimento de uma identidade espiritual. Se levamos uma vida adequada, se a nossa mente manifesta as qualidades certas em relação à pessoa do sexo oposto, encontramos nossa contraparte masculina ou feminina adequada. Mas se nos deixarmos distrair por certos interesses sensuais, iremos desposar a pessoa errada. Desposando a pessoa certa, reconstruímos a imagem de Deus encarnado, e isso é o que é o casamento. (...)
Moyers: Se o casamento é essa reunião do próprio com o próprio, com a base masculina ou feminina de nós mesmos, por que é assim tão precário na nossa sociedade moderna?
Campbell: Porque não é encarado como casamento. Eu diria que se o casamento não é de magna prioridade em suas vidas, vocês não estão casados. O casamento significa dois que são um, os dois que se tornam uma só carne. Se o casamento dura o suficiente, e se você amolda constantemente a ele, em vez de ceder a caprichos pessoais, você chega a se dar conta de que isso é verdade - os dois realmente são um.
Moyers: Um, não apenas biologicamente, mas espiritualmente.
Campbell: Sobretudo espiritualmente. O biológico é a distração que pode conduzi-lo à falsa identificação.
Continua...

4.04.2007

Conto: As quatro esposas

Havia um rei que tinha quatro esposas. Ele amava mais a quarta, presenteava ela com belas jóias e a tratava com muito carinho. Ele também amava muito a terceira, ela era a rainha apresentada aos outros reis e em festas reais. Seu único medo era que ela a deixasse por algum outro rei. A segunda esposa era sua confidente, ouvia seus problemas e procurava soluções para ele. Estava sempre com ele nos momentos difíceis. A primeira esposa era uma leal companheira, e contribuía para manter a paz no reino. Mesmo assim, ele não amava a primeira esposa, ela o amava profundamente, mas ele pouco se importava com ela.
Um dia o rei caiu doente, e ficou sabendo que estava morrendo. Ele pensou na sua vida de luxo e prazeres: "sou rei, tenho poder, quatro esposas, mas quando eu morrer, estarei sozinho". Assim, perguntou a quarta esposa "eu te amo mais que todas, adorno-te com o que a de melhor e cuido de você com todo carinho. Agora que estou morrendo, você me seguiria e ficaria comigo na morte?" "Sem chance" respondeu a quarta esposa, saindo do quarto sem olhar pra trás. A resposta dela cortou como uma faca o coração do rei.
Arrasado, o rei fez a mesma pergunta a terceira esposa, que respondeu: "Não. A vida é muito boa. Quando você morrer, eu vou casar novamente". O rei desabou a chorar e indagou o mesmo a segunda esposa, que disse: "Me desculpe, mas dessa vez eu não posso lhe ajudar, o máximo que posso fazer é levá-lo até a cova". Solitário, o rei ouviu uma voz dizer: "Eu vou com você, não importa aonde for". O rei olhou e viu a primeira esposa. Ela estava mal nutrida, acabada. "Deveria ter cuidado melhor de você quando tive chance", disse o rei.
Na verdade, todos temos quatro esposas em nossas vidas... nossa quarta esposa é o nosso corpo. Não importa quanto tempo ou esforço gastemos com ele, nos deixará quando morrermos. A terceira são as nossas posses e bens. Quando morrermos, ela vai para os outros. A segunda é a nossa família e amigos. Não importa o quanto estejam do nosso lado, não podem nos acompanhar além da cova. E a primeira é a nossa alma, geralmente negligenciada na busca por bens, poder e prazeres do ego. Ainda assim, a alma é a única coisa que nós seguirá onde quer que vamos. Então, cuide dela enquanto é tempo.