2.14.2007
Paramos por aqui e voltamos no dia 25 de fevereiro com mais atrações... pra alguns, nos vemos no seminário, para os que não estarão por lá, aproveitem e confiram os "arquivos" do blog. Como anda bem quente por aqui, eu vou tomar um refresco mesmo... será que essa cafeteria serve acerola?! O garçom?!
O Louco: Cap.X
Selma entra no quarto de arma em punho. Um homem de costas, tenta passar pela janela quebrada.
- Parado ou eu atiro. É a polícia.
O homem não se move.
- Vire-se devagar, com as mãos onde eu possa ver. Chegue mais próximo.
O homem se vira e Selma leva um susto. O sangue se esvai de sua face com a revelação, deixando-a pálida como uma folha de papel.
- Meu Deus, Kevin...
Kevin sorri timidamente
- A janela estava emperrada. Tive de quebrar.
– Mas como? Você está morto.
– Você deve ter lido tudo, matei os meus Eus. Pus fim a tudo isso. Estou livre... ou quase.
– Isso é loucura.
– Não. É maravilhoso.
Sons de sirene anunciam a aproximação da polícia.
– Por favor, policial. Não feri ninguém, não prejudiquei ninguém, só matei meus Eus. Será que nem isso um homem tem direito de fazer? Olhe esse sol, você já olhou diretamente pra ele? Policial, só quero ficar em paz.
Kevin caminha em direção a janela.
– Kevin, se você tentar passar por essa janela eu atiro.
Kevin olha para Selma, e sai. Escorrega por um cano e corre pela rua. Selma vai vagarosamente até a janela, observa Kevin correndo já distante. Ela hesita um instante, levanta a cabeça e olha o sol. A tempestade passou e o dia está claro novamente.
- Parado ou eu atiro. É a polícia.
O homem não se move.
- Vire-se devagar, com as mãos onde eu possa ver. Chegue mais próximo.
O homem se vira e Selma leva um susto. O sangue se esvai de sua face com a revelação, deixando-a pálida como uma folha de papel.
- Meu Deus, Kevin...
Kevin sorri timidamente
- A janela estava emperrada. Tive de quebrar.
– Mas como? Você está morto.
– Você deve ter lido tudo, matei os meus Eus. Pus fim a tudo isso. Estou livre... ou quase.
– Isso é loucura.
– Não. É maravilhoso.
Sons de sirene anunciam a aproximação da polícia.
– Por favor, policial. Não feri ninguém, não prejudiquei ninguém, só matei meus Eus. Será que nem isso um homem tem direito de fazer? Olhe esse sol, você já olhou diretamente pra ele? Policial, só quero ficar em paz.
Kevin caminha em direção a janela.
– Kevin, se você tentar passar por essa janela eu atiro.
Kevin olha para Selma, e sai. Escorrega por um cano e corre pela rua. Selma vai vagarosamente até a janela, observa Kevin correndo já distante. Ela hesita um instante, levanta a cabeça e olha o sol. A tempestade passou e o dia está claro novamente.
FIM
2.13.2007
O Louco: Cap.IX
Selma engatilha o revólver. Vai em direção a frágil escada que leva ao segundo andar. Cada passo soa como uma nota desafinada nas tábuas velhas. Seus pés parecem colar no chão, ela precisa redobrar os esforços para chegar no segundo andar.
Lá, encontra várias portas. Uma delas está entreaberta. Selma a escolhe e entra no cômodo. O suor escorre pela testa e o coração parece querer sair pela boca. Ela vê um papel escrito sobre uma pequena mesa comida pelos cupins. Receosa, ela pega o papel e lê.
Gritei aos homens: quero ser crucificado.
E eles me perguntaram: por que seu sangue haveria de recair sobre nossa cabeça?
– E de que outra forma serão elevados, a não ser crucificando os loucos?
Concordaram comigo e fui crucificado. E a crucificação me apaziguou. Quando estava suspenso entre a terra e o céu, eles ergueram a cabeça para me ver. E foram elevados, pois suas cabeças nunca tinham se erguido antes. Mas logo depois de erguerem a cabeça e me ver, perguntaram:
– Que pecado está pagando?
– Por que motivo se sacrifica?
– Você acha que esse é o preço da glória do mundo?
– Olhem, ele está sorrindo! Será que uma dor assim pode ser perdoada?
Respondi: Lembrem-se apenas de que sorri. Não estou pagando nenhum pecado, nem fazendo nenhum sacrifício, nem desejo nenhuma gloria; e não tenho nada a perdoar.
E agora me vou, como outros crucificados se foram. E não pensem que estamos fartos de crucificações. Pois temos de ser crucificados por homens cada vez maiores, entre terras e céus cada vez mais vastos.
Vidro estilhaça no cômodo ao lado. Selma larga a folha de papel e corre. Escolhe a porta errada, o cômodo está vazio. Volta ao corredor e chuta outra porta. De arma em punho, ela entra.
Lá, encontra várias portas. Uma delas está entreaberta. Selma a escolhe e entra no cômodo. O suor escorre pela testa e o coração parece querer sair pela boca. Ela vê um papel escrito sobre uma pequena mesa comida pelos cupins. Receosa, ela pega o papel e lê.
Gritei aos homens: quero ser crucificado.
E eles me perguntaram: por que seu sangue haveria de recair sobre nossa cabeça?
– E de que outra forma serão elevados, a não ser crucificando os loucos?
Concordaram comigo e fui crucificado. E a crucificação me apaziguou. Quando estava suspenso entre a terra e o céu, eles ergueram a cabeça para me ver. E foram elevados, pois suas cabeças nunca tinham se erguido antes. Mas logo depois de erguerem a cabeça e me ver, perguntaram:
– Que pecado está pagando?
– Por que motivo se sacrifica?
– Você acha que esse é o preço da glória do mundo?
– Olhem, ele está sorrindo! Será que uma dor assim pode ser perdoada?
Respondi: Lembrem-se apenas de que sorri. Não estou pagando nenhum pecado, nem fazendo nenhum sacrifício, nem desejo nenhuma gloria; e não tenho nada a perdoar.
E agora me vou, como outros crucificados se foram. E não pensem que estamos fartos de crucificações. Pois temos de ser crucificados por homens cada vez maiores, entre terras e céus cada vez mais vastos.
Vidro estilhaça no cômodo ao lado. Selma larga a folha de papel e corre. Escolhe a porta errada, o cômodo está vazio. Volta ao corredor e chuta outra porta. De arma em punho, ela entra.
2.12.2007
Cafe Vienna - Marrocos 2
Oi pessoal,
Depois desse fim de semana, tenho muita coisa pra contar.
Após chegarmos de Casablanca, nos reunimos para o seminário de 25 anos da Sahaja Yoga na Austria.
As coisas nao param por aqui. ;)
Após chegarmos de Casablanca, nos reunimos para o seminário de 25 anos da Sahaja Yoga na Austria.
As coisas nao param por aqui. ;)
Bem, o tour pelo Marrocos terminou no sabado retrasado 4/02 com um programa público na capital do país, Rabat, cidade do principe. 50 marroquinos compareceram ao evento que contou tambem com uma apresentacao musical integrando sahaja yoguis e cantores locais. A fusao artistica encerrou a serie de 4 programas publicos com cerca de 150 realizacoes no pais arábe.
Como Sir C.P. havia se pronunciado anteriormente: "Sao as portas do mundo arabe se abrindo pra Sahaja Yoga."

O Louco: Cap.VIII
Um Perito tira foto do cadáver no chão. Selma acompanha o trabalho e anota algo no seu bloco de papel. Um policial se aproxima dela
- Detetive, essa era carteira de identidade da vítima.
O rapaz da foto é simpático, branco, cabelos negros e curtos, jovem, bem afeiçoado.
- Kevin... encontraram alguma droga?
- Nada. O cara tava limpo. Se a senhora quiser tem uns vizinhos dispostos a falar, mas já adiantaram que o cara era um santo.
- Certo.
- Detetive, o cara era funcionário de repartição pública, solteiro, aparentemente tranqüilo, sem vício... quem vai matar um maluco desses? Foi assalto na certa.
Selma olha o álbum de fotos de Kevin. O rapaz é simpático mesmo. Mas em nenhuma foto ele sorri. Os depoimentos de vizinhos, amigos, colegas do trabalho não ajudam muito.
– Era como um filho pra gente.
– Nem parecia funcionário público, vinha todo dia.
– Taí, a galera achava ele meio esquisito, acho que não tinha namorada.
– O Kevin sempre me ajudava com o lixo, um ótimo rapaz.
– Família, ele nunca falou nada. Ele morava sozinho. Sabe de algo Fernando?
– Ele era na dele, caladão, mas era bacana. Fim triste esse, né?
No necrotério, o médico tentou ajudar. Mas o corpo havia sumido misteriosamente.
– Não consigo entender. Estava aqui pro exame, e logo depois sumiu.
– Isso é estranho. Um corpo não sai por aí assim, ou sai?!
Selma sabia que não deveria ter ido até o cemitério, mas era o seu dever.
– De todos os que vieram aqui pra eu enterrar, só gostei dele.
– Por que? – indagou confusa a detetive.
– Por que? Dona, todos que vêm aqui, vêm chorando e vão embora chorando. Só ele vem rindo e vai embora rindo.
Selma parou, olhou o coveiro.
– Ele esteve aqui mais de uma vez?
– Ô. Umas sete.
O rapaz da foto é simpático, branco, cabelos negros e curtos, jovem, bem afeiçoado.
- Kevin... encontraram alguma droga?
- Nada. O cara tava limpo. Se a senhora quiser tem uns vizinhos dispostos a falar, mas já adiantaram que o cara era um santo.
- Certo.
- Detetive, o cara era funcionário de repartição pública, solteiro, aparentemente tranqüilo, sem vício... quem vai matar um maluco desses? Foi assalto na certa.
Selma olha o álbum de fotos de Kevin. O rapaz é simpático mesmo. Mas em nenhuma foto ele sorri. Os depoimentos de vizinhos, amigos, colegas do trabalho não ajudam muito.
– Era como um filho pra gente.
– Nem parecia funcionário público, vinha todo dia.
– Taí, a galera achava ele meio esquisito, acho que não tinha namorada.
– O Kevin sempre me ajudava com o lixo, um ótimo rapaz.
– Família, ele nunca falou nada. Ele morava sozinho. Sabe de algo Fernando?
– Ele era na dele, caladão, mas era bacana. Fim triste esse, né?
No necrotério, o médico tentou ajudar. Mas o corpo havia sumido misteriosamente.
– Não consigo entender. Estava aqui pro exame, e logo depois sumiu.
– Isso é estranho. Um corpo não sai por aí assim, ou sai?!
Selma sabia que não deveria ter ido até o cemitério, mas era o seu dever.
– De todos os que vieram aqui pra eu enterrar, só gostei dele.
– Por que? – indagou confusa a detetive.
– Por que? Dona, todos que vêm aqui, vêm chorando e vão embora chorando. Só ele vem rindo e vai embora rindo.
Selma parou, olhou o coveiro.
– Ele esteve aqui mais de uma vez?
– Ô. Umas sete.
2.11.2007
O Louco: Cap.VII
Selma atravessa a rua correndo. Abre a porta do cortiço, ela range como um aviso natural da chegada de um intruso pouco acostumado com o seu modo de se comportar. A mão puxa instintivamente a arma da cintura.
O local parece abandonado, os forros desabaram, não tem portas ou móveis nos cômodos do primeiro andar. Pelo contrário, há bastante lixo aonde quer que os olhos possam discernir naquela escuridão.
O Louco está num velho cômodo, sentado numa pequena mesa comida pelos cupins, e num banco de metal enferrujado. Ainda assim, ele escreve tranqüilamente no seu diário.
Tem gente que me pergunta como foi que enlouqueci. Foi assim...
...certo dia, muito antes dos deuses nascerem, acordei de um longo sono e descobri que minhas máscaras tinham sido roubadas. As sete máscaras que eu tinha feito e usado em sete vidas. Saí correndo sem máscara alguma pelas ruas apinhadas de gente, gritando: Ladrões, ladrões, malditos ladrões!
A maioria ria, apenas alguns correram para casa com medo de mim. Quando cheguei à praça, uma senhora no terraço de uma casa gritou: É um louco!
Ergui os olhos vê-la e o sol beijou meu rosto nu pela primeira vez. Pela primeira vez, contemplei o universo, minha alma se inflamou de amor, e não quis mais saber de máscaras. Gritei como se estivesse em transe: Abençoados, abençoados os ladrões que roubaram minhas máscaras!
Foi assim que enlouqueci.
O local parece abandonado, os forros desabaram, não tem portas ou móveis nos cômodos do primeiro andar. Pelo contrário, há bastante lixo aonde quer que os olhos possam discernir naquela escuridão.
O Louco está num velho cômodo, sentado numa pequena mesa comida pelos cupins, e num banco de metal enferrujado. Ainda assim, ele escreve tranqüilamente no seu diário.
Tem gente que me pergunta como foi que enlouqueci. Foi assim...
...certo dia, muito antes dos deuses nascerem, acordei de um longo sono e descobri que minhas máscaras tinham sido roubadas. As sete máscaras que eu tinha feito e usado em sete vidas. Saí correndo sem máscara alguma pelas ruas apinhadas de gente, gritando: Ladrões, ladrões, malditos ladrões!
A maioria ria, apenas alguns correram para casa com medo de mim. Quando cheguei à praça, uma senhora no terraço de uma casa gritou: É um louco!
Ergui os olhos vê-la e o sol beijou meu rosto nu pela primeira vez. Pela primeira vez, contemplei o universo, minha alma se inflamou de amor, e não quis mais saber de máscaras. Gritei como se estivesse em transe: Abençoados, abençoados os ladrões que roubaram minhas máscaras!
Foi assim que enlouqueci.
2.09.2007
O Louco: Cap.VI
- Tudo certo, pode ir. – diz o delegado. Selma se levanta, mas ele a repreende. – Eu falei com o cabo Reis. A senhorita fica.
O policial sai da sala às pressas, no mesmo estilo em que entrou. Não sem antes mostrar uma pitada de sarcasmo no sorriso dirigido a Selma.
- Pai! Quer parar de me tratar como uma menininha!
- Selma, minha filha. Eu sei que você é uma excelente policial, uma detetive incrível, que conferiu todas as fontes possíveis, acompanhou todo o caso, tudo. Mas esse Louco é perigoso. Eu não quero encontrar minha filha, a minha melhor policial, num saco de lixo.
- Pai, esse cara nunca esteve tão perto. Eu venho me dedicando nisso há semanas...
- Imagina como o Carlos ia ficar?
Selma se mexe agitada. Esse nome não veio numa boa hora.
- Bom sujeito esse Carlos. Gostei dele, leva ele pra jantar lá em casa um dia desses. Agora, pode voltar ao trabalho.
Ela caminha pesadamente em direção a porta. Parece matar seus próprios pensamentos a cada passo. E antes de sair, o delegado fala:
- Selma, espere a minha ligação. Nada de heroísmo, você só entra lá com cobertura.
Selma confere mais uma vez o celular. A chuva não dá trégua. O bêbado reaparece cambaleando não muito distante. Os bêbados parecem que estão cegos.
- Desde quando está cego?
- Desde que nasci. – responde o homem mais sábio da Terra.
- E o que fez da vida? – indaga Selma.
Colocando a mão sobre o peito, o velho sorri e responde.
- Contemplo todos esses sóis, essas luas e estrelas.
Selma guarda o celular na bolsa, e põe a bolsa no porta luvas. Desliga o carro e desce.
O policial sai da sala às pressas, no mesmo estilo em que entrou. Não sem antes mostrar uma pitada de sarcasmo no sorriso dirigido a Selma.
- Pai! Quer parar de me tratar como uma menininha!
- Selma, minha filha. Eu sei que você é uma excelente policial, uma detetive incrível, que conferiu todas as fontes possíveis, acompanhou todo o caso, tudo. Mas esse Louco é perigoso. Eu não quero encontrar minha filha, a minha melhor policial, num saco de lixo.
- Pai, esse cara nunca esteve tão perto. Eu venho me dedicando nisso há semanas...
- Imagina como o Carlos ia ficar?
Selma se mexe agitada. Esse nome não veio numa boa hora.
- Bom sujeito esse Carlos. Gostei dele, leva ele pra jantar lá em casa um dia desses. Agora, pode voltar ao trabalho.
Ela caminha pesadamente em direção a porta. Parece matar seus próprios pensamentos a cada passo. E antes de sair, o delegado fala:
- Selma, espere a minha ligação. Nada de heroísmo, você só entra lá com cobertura.
Selma confere mais uma vez o celular. A chuva não dá trégua. O bêbado reaparece cambaleando não muito distante. Os bêbados parecem que estão cegos.
- Desde quando está cego?
- Desde que nasci. – responde o homem mais sábio da Terra.
- E o que fez da vida? – indaga Selma.
Colocando a mão sobre o peito, o velho sorri e responde.
- Contemplo todos esses sóis, essas luas e estrelas.
Selma guarda o celular na bolsa, e põe a bolsa no porta luvas. Desliga o carro e desce.
O Louco: Cap.V
O velho ronca levemente. Com o diário do Louco nas mãos, Selma folheia algumas páginas. Até se deparar com um pequeno conto.
Na calada da noite, enquanto eu estava semi-adormecido, meus sete eus sentaram-se em roda e começaram a sussurrar entre si.
Primeiro eu: Moro aqui neste louco há anos, sem nada para fazer além de renovar seu sofrimento e recriar sua dor à noite. Não agüento mais essa sina, vou me rebelar.
Segundo homem: Sua sorte é melhor que a minha, irmão, pois cabe a mim ser o Eu alegre deste louco. Rio suas risadas, canto suas horas felizes e com pés velozes como asas danço seus pensamentos mais brilhantes. Eu é que devia me rebelar contra minha existência cansativa.
Terceiro eu: E eu, então, o eu do amor, o ramo flamejante da paixão desenfreada e dos desejos fantásticos? Cabe Amim, o Eu doente de amor, rebelar-se contra este louco.
Quarto eu: Entre todos vocês, sou o mais desgraçado, pois nada me foi dado além do ódio raivoso e do desejo de destruir. Cabe a mim, nascido nas cavernas sombrias do inferno, protestar por servir a este louco.
Quinto eu: Não, cabe a mim, o Eu racional, ou Eu fantasioso, o Eu da fome e da sede, aquele condenado a vagar sem descanso em busca de coisas desconhecidas e de coisas ainda não criadas. Sou Eu, e não vocês, que deve se rebelar.
O sexto eu – E quanto a mim, o Eu trabalhador, pobre operário, que com mãos pacientes e olhos aflitos transforma os dias em imagens e dá formas novas e eternas aos elementos informes. Sou Eu, o Eu solitário, que deve se rebelar contra este louco incansável.
Sétimo eu – Que estranho vocês todos quererem se rebelar contra este homem, uma vez que todos vocês têm um destino predeterminado a cumprir. Ah! Se Eu pudesse ser como um de vocês, um Eu com um destino marcado! Mas não, não tenho nada, sou o Eu que não faz nada, o Eu que fica no nada vazio e mudo, o nada de antes e depois do tempo, enquanto vocês estão ocupados recriando a vida. Quem é que deve se rebelar, amigos, vocês ou Eu?
Todos os seis olharam para ele com pena, mas não disseram mais nada; e, à medida que a noite se fazia mais profunda, um após outro foram dormir, resignados e aliviados. Mas o sétimo Eu continuou acordado, contemplando o nada que está além de todas as coisas.
O delegado bate o telefone e desperta Selma de seus pensamentos distantes.
Na calada da noite, enquanto eu estava semi-adormecido, meus sete eus sentaram-se em roda e começaram a sussurrar entre si.
Primeiro eu: Moro aqui neste louco há anos, sem nada para fazer além de renovar seu sofrimento e recriar sua dor à noite. Não agüento mais essa sina, vou me rebelar.
Segundo homem: Sua sorte é melhor que a minha, irmão, pois cabe a mim ser o Eu alegre deste louco. Rio suas risadas, canto suas horas felizes e com pés velozes como asas danço seus pensamentos mais brilhantes. Eu é que devia me rebelar contra minha existência cansativa.
Terceiro eu: E eu, então, o eu do amor, o ramo flamejante da paixão desenfreada e dos desejos fantásticos? Cabe Amim, o Eu doente de amor, rebelar-se contra este louco.
Quarto eu: Entre todos vocês, sou o mais desgraçado, pois nada me foi dado além do ódio raivoso e do desejo de destruir. Cabe a mim, nascido nas cavernas sombrias do inferno, protestar por servir a este louco.
Quinto eu: Não, cabe a mim, o Eu racional, ou Eu fantasioso, o Eu da fome e da sede, aquele condenado a vagar sem descanso em busca de coisas desconhecidas e de coisas ainda não criadas. Sou Eu, e não vocês, que deve se rebelar.
O sexto eu – E quanto a mim, o Eu trabalhador, pobre operário, que com mãos pacientes e olhos aflitos transforma os dias em imagens e dá formas novas e eternas aos elementos informes. Sou Eu, o Eu solitário, que deve se rebelar contra este louco incansável.
Sétimo eu – Que estranho vocês todos quererem se rebelar contra este homem, uma vez que todos vocês têm um destino predeterminado a cumprir. Ah! Se Eu pudesse ser como um de vocês, um Eu com um destino marcado! Mas não, não tenho nada, sou o Eu que não faz nada, o Eu que fica no nada vazio e mudo, o nada de antes e depois do tempo, enquanto vocês estão ocupados recriando a vida. Quem é que deve se rebelar, amigos, vocês ou Eu?
Todos os seis olharam para ele com pena, mas não disseram mais nada; e, à medida que a noite se fazia mais profunda, um após outro foram dormir, resignados e aliviados. Mas o sétimo Eu continuou acordado, contemplando o nada que está além de todas as coisas.
O delegado bate o telefone e desperta Selma de seus pensamentos distantes.
2.08.2007
O Louco: Cap.IV
A sala é espaçosa, os móveis novos, mas ainda assim, fotos, recortes de jornal e anotações corrompem o ambiente. O único local imaculado é um canto da estante, decorado com troféus e diplomas. Selma está deitada no chão sobre toda aquela papelada, falando ao telefone.
- A descrição bate perfeitamente, ninguém sabe nada sobre ele. E esse é o tipo do local perfeito pra se esconder, um cortiço da pior qualidade, só um louco moraria aqui.
- Obrigada André.
Ela desliga o telefone, procura articular os pensamentos, pega um diário desmantelado. O homem mais sábio da terra a levou até o quarto dele, e a entregou o diário.
- Fique à vontade. Ele lembrava a senhorita, não era de falar muito. Em compensação escrevia bastante. – disse o velho cego – Antes de cometer a loucura de fugir daqui, ele me deu de presente esse diário. Tem coisas extraordinárias aí.
Selma pega o diário e se senta numa cadeira esquecida no canto do pequeno quarto. O velho boceja, e deita na cama.
- Provavelmente ele veio pra cá pelo mesmo motivo que muitos de nós.
- Qual é o motivo do senhor? – indagou Selma.
- Meu pai queria que eu fosse advogado, minha mãe, um médico. Meu irmão, um atleta, queria que seguisse o caminho dos esportes. Minha irmã desejava ver-me um destemido marinheiro, como era seu namorado. Então vim pra cá ser eu mesmo. E a senhora? Veio por que motivo?
- Não, eu não sou paciente daqui. – disse Selma sorrindo.
- Ah, então a senhora vem do outro lado da muralha, onde vivem os loucos.
- A descrição bate perfeitamente, ninguém sabe nada sobre ele. E esse é o tipo do local perfeito pra se esconder, um cortiço da pior qualidade, só um louco moraria aqui.
- Obrigada André.
Ela desliga o telefone, procura articular os pensamentos, pega um diário desmantelado. O homem mais sábio da terra a levou até o quarto dele, e a entregou o diário.
- Fique à vontade. Ele lembrava a senhorita, não era de falar muito. Em compensação escrevia bastante. – disse o velho cego – Antes de cometer a loucura de fugir daqui, ele me deu de presente esse diário. Tem coisas extraordinárias aí.
Selma pega o diário e se senta numa cadeira esquecida no canto do pequeno quarto. O velho boceja, e deita na cama.
- Provavelmente ele veio pra cá pelo mesmo motivo que muitos de nós.
- Qual é o motivo do senhor? – indagou Selma.
- Meu pai queria que eu fosse advogado, minha mãe, um médico. Meu irmão, um atleta, queria que seguisse o caminho dos esportes. Minha irmã desejava ver-me um destemido marinheiro, como era seu namorado. Então vim pra cá ser eu mesmo. E a senhora? Veio por que motivo?
- Não, eu não sou paciente daqui. – disse Selma sorrindo.
- Ah, então a senhora vem do outro lado da muralha, onde vivem os loucos.
Mahabharata: Cap. 10
Shri Ganesha, que anotava o poema com sua preza desde o principio, indagou - E o que ocorreu com Dhritarashtra e a esposa? - Os olhos do menino pareciam fazer a mesma indagação. Vyasa compreendeu e continuou:
Quando Gandhari, a rainha da venda negra, ficou grávida, carregou seu fruto durante dois anos. Seu ventre estava pesado e muito duro. Ficou sabendo do nascimento de Yudishsthira, o primeiro filho de Kunti, e que ele nascera para ser rei da terra. Entretanto, Gandhari queria a coroa para seu próprio filho, que por obscura decisão do destino, tardava a nascer. Assim, pediu a serva para bater-lhe no ventre com uma barra de ferro. A serva recusou, mas a rainha deu ordens severas para que o fizesse, e várias pancadas foram desferidas até que uma bola estranha saísse de dentro dela.
- O que acaba de sair do meu ventre?
- Uma bola de carne, fria e dura.
- Joga isso num poço e deixa-me só.
Dizem que teria sido mais prudente obedecer à ordem da rainha. Mas Vyasa, seguindo uma ordem secreta ou um capricho pessoal, apareceu diante de Gandhari e disse.
- Não jogues nada fora. Corta essa bola em cem pedaços, coloca-os em cem jarros de barro, molhando-os com água fresca e deles nascerão cem filhos.
E cem filhos nasceram dessa magia. O primeiro veio ao mundo urrando como um asno feroz. Em resposta, os cães e os chacais urravam de medo e raiva. Nasceu Duryodhana, o duro de vencer. Mas o que isso significaria? Interrogado, Bhishma, que conhecia todos os presságios, disse que seria preciso sacrificar aquela criança maligna. Mas o rei e a rainha recusaram-se.
- Jamais tiveste um filho nos braços. – disse o rei – não sabes o que significa faer correr o próprio sangue. Não posso matar meu filho.
- Mesmo que urre, trazendo terror e ódio, meu filho não será morto. – disse a rainha. E Duryodhana sobreviveu, o primeiro dos cem filhos portadores de violência.
Continua... Pandu se despede
Quando Gandhari, a rainha da venda negra, ficou grávida, carregou seu fruto durante dois anos. Seu ventre estava pesado e muito duro. Ficou sabendo do nascimento de Yudishsthira, o primeiro filho de Kunti, e que ele nascera para ser rei da terra. Entretanto, Gandhari queria a coroa para seu próprio filho, que por obscura decisão do destino, tardava a nascer. Assim, pediu a serva para bater-lhe no ventre com uma barra de ferro. A serva recusou, mas a rainha deu ordens severas para que o fizesse, e várias pancadas foram desferidas até que uma bola estranha saísse de dentro dela.
- O que acaba de sair do meu ventre?
- Uma bola de carne, fria e dura.
- Joga isso num poço e deixa-me só.
Dizem que teria sido mais prudente obedecer à ordem da rainha. Mas Vyasa, seguindo uma ordem secreta ou um capricho pessoal, apareceu diante de Gandhari e disse.
- Não jogues nada fora. Corta essa bola em cem pedaços, coloca-os em cem jarros de barro, molhando-os com água fresca e deles nascerão cem filhos.
E cem filhos nasceram dessa magia. O primeiro veio ao mundo urrando como um asno feroz. Em resposta, os cães e os chacais urravam de medo e raiva. Nasceu Duryodhana, o duro de vencer. Mas o que isso significaria? Interrogado, Bhishma, que conhecia todos os presságios, disse que seria preciso sacrificar aquela criança maligna. Mas o rei e a rainha recusaram-se.
- Jamais tiveste um filho nos braços. – disse o rei – não sabes o que significa faer correr o próprio sangue. Não posso matar meu filho.
- Mesmo que urre, trazendo terror e ódio, meu filho não será morto. – disse a rainha. E Duryodhana sobreviveu, o primeiro dos cem filhos portadores de violência.
Continua... Pandu se despede
2.07.2007
O Louco: Cap.III
O celular toca e desperta Selma de seus pensamentos. Ela procura na bolsa e leva alguns segundos para ver que ela o havia deixado no painel do carro. Olha pelo retrovisor, parece procurar o mendigo, e atende:
- Dona Selma? É Marta.
- Marta, pode falar.
- O Seu Carlos ligou avisando que vai atrasar. Ele perguntou pela senhora, disse que já ligou umas vezes, mas ninguém atende o celular. A senhora quer que eu dê algum recado a ele se ele tornar a ligar?
- Não, tudo bem. Eu ligo pra ele. Obrigada Marta.
Selma confere a caixa de mensagens do aparelho. O carro ainda está ligado. A chuva aperta. Lá fora está menos confuso do que na sua cabeça. Ela busca com os olhos, algo que sua mente possa ter esquecido. Eles param diante de um adesivo da polícia colado no vidro da frente. E sua cabeça faz uma viagem até a delegacia.
A sala do delegado é mal arrumada. Uma pilha de casos se acumula na mesa e esconde as poucas fotos de família que lutam bravamente para permanecer ali. Selma está em pé diante dele, ela o encara. O homem está nervoso, mas evita olhá-la nos olhos, isso a irrita.
- Você nem pense em fazer isso mocinha. Esse elemento é perigoso, temos poucas informações sobre ele, e eu estou aqui pra isso. Na verdade, já estou há muito tempo na polícia, e sei de muitos casos parecidos, em que jovens metidas a valente como você, acabaram muito mal. Está me ouvindo, moça?
Selma finge não ouvir, olha os quadros da parede.
- Selma, estou falando com você!
A porta se abre e um policial ofegante atravessa com a delicadeza de um touro numa loja de porcelana.
- Senhor, acabaram de ligar... desculpe, eu não sabia.
- Por favor, continue.
- É uma ligação da 15ª, problemas num banco.
- Selma, aguarde um instante.
Ela não tem esse tempo todo, e sabe disso.
- Dona Selma? É Marta.
- Marta, pode falar.
- O Seu Carlos ligou avisando que vai atrasar. Ele perguntou pela senhora, disse que já ligou umas vezes, mas ninguém atende o celular. A senhora quer que eu dê algum recado a ele se ele tornar a ligar?
- Não, tudo bem. Eu ligo pra ele. Obrigada Marta.
Selma confere a caixa de mensagens do aparelho. O carro ainda está ligado. A chuva aperta. Lá fora está menos confuso do que na sua cabeça. Ela busca com os olhos, algo que sua mente possa ter esquecido. Eles param diante de um adesivo da polícia colado no vidro da frente. E sua cabeça faz uma viagem até a delegacia.
A sala do delegado é mal arrumada. Uma pilha de casos se acumula na mesa e esconde as poucas fotos de família que lutam bravamente para permanecer ali. Selma está em pé diante dele, ela o encara. O homem está nervoso, mas evita olhá-la nos olhos, isso a irrita.
- Você nem pense em fazer isso mocinha. Esse elemento é perigoso, temos poucas informações sobre ele, e eu estou aqui pra isso. Na verdade, já estou há muito tempo na polícia, e sei de muitos casos parecidos, em que jovens metidas a valente como você, acabaram muito mal. Está me ouvindo, moça?
Selma finge não ouvir, olha os quadros da parede.
- Selma, estou falando com você!
A porta se abre e um policial ofegante atravessa com a delicadeza de um touro numa loja de porcelana.
- Senhor, acabaram de ligar... desculpe, eu não sabia.
- Por favor, continue.
- É uma ligação da 15ª, problemas num banco.
- Selma, aguarde um instante.
Ela não tem esse tempo todo, e sabe disso.
2.06.2007
O Louco: Cap.II
Selma atravessa um longo corredor branco paralelo a um belo gramado. A tarde de primavera deixa o ar leve. Apesar da atmosfera agradável, Selma está tensa. Ela se aproxima de um senhor de idade, adornado por uma vasta cabeleira e uma longa barba tão brancas quanto a túnica que veste. O homem é cego de nascença, mas mantém o sincero sorriso nos lábios.
O homem tem diante de si, alguns poucos que se vestem como ele, são seus ouvintes. Todavia, estes não transmitem a mesma serenidade, parecem viajantes, que mesmo presentes têm suas mentes distantes na longa viagem que vão ou que acabaram de fazer. Um rapaz forte que acompanha Selma por aquela casa diz:
- Este é o sujeito. – e em tom bem alto pronuncia – Veja, é o homem mais sábio da terra.
Selma olha o rapaz, ele sorri debochadamente e se afasta. O velho cego não se incomoda e prossegue seu sermão vespertino:
- Um velho vestido de branco sobe uma montanha bem alta e encontra ele mesmo, vestido de vermelho, chegando pelo outro extremo. Bom dia para você, irmão. Ele diz. Porém, o de vermelho nada responde. O velho vestido de branco diz então, parece que você está de mau humor hoje. Ao que o de vermelho responde, estou sim. Ultimamente tenho sido confundido com você. Chamam-me pelo seu nome e me tratam como se eu fosse você, e isso me aborrece muito. E o de branco diz, eu também tenho sido tomado por você. O velho de vermelho vira de costas e sai gritando: humanos estúpidos e insensíveis, bando de corvos e asnos. Não sabem discernir nem mesmo um palmo diante dos olhos.
O velho parou, sorriu na direção de Selma.
- Jasmim. Suave. Irmãos, deixem-me a sós com essa senhorita. Por certo, ela deseja desmascarar-me, mal sabe ela que já não tenho mais nenhuma máscara sobrando.
As pessoas saem, alguns cumprimentam Selma. Ela os evita com o olhar.
- Estamos nus, mas não doentes. Sente-se. – disse o velho, oferecendo-lhe um lugar próximo ao banco no qual estava.
- Senhor, vim saber qual era sua relação com o Louco? – perguntou Selma secamente.
O homem tem diante de si, alguns poucos que se vestem como ele, são seus ouvintes. Todavia, estes não transmitem a mesma serenidade, parecem viajantes, que mesmo presentes têm suas mentes distantes na longa viagem que vão ou que acabaram de fazer. Um rapaz forte que acompanha Selma por aquela casa diz:
- Este é o sujeito. – e em tom bem alto pronuncia – Veja, é o homem mais sábio da terra.
Selma olha o rapaz, ele sorri debochadamente e se afasta. O velho cego não se incomoda e prossegue seu sermão vespertino:
- Um velho vestido de branco sobe uma montanha bem alta e encontra ele mesmo, vestido de vermelho, chegando pelo outro extremo. Bom dia para você, irmão. Ele diz. Porém, o de vermelho nada responde. O velho vestido de branco diz então, parece que você está de mau humor hoje. Ao que o de vermelho responde, estou sim. Ultimamente tenho sido confundido com você. Chamam-me pelo seu nome e me tratam como se eu fosse você, e isso me aborrece muito. E o de branco diz, eu também tenho sido tomado por você. O velho de vermelho vira de costas e sai gritando: humanos estúpidos e insensíveis, bando de corvos e asnos. Não sabem discernir nem mesmo um palmo diante dos olhos.
O velho parou, sorriu na direção de Selma.
- Jasmim. Suave. Irmãos, deixem-me a sós com essa senhorita. Por certo, ela deseja desmascarar-me, mal sabe ela que já não tenho mais nenhuma máscara sobrando.
As pessoas saem, alguns cumprimentam Selma. Ela os evita com o olhar.
- Estamos nus, mas não doentes. Sente-se. – disse o velho, oferecendo-lhe um lugar próximo ao banco no qual estava.
- Senhor, vim saber qual era sua relação com o Louco? – perguntou Selma secamente.
2.05.2007
O Louco: Cap.I
Chove torrencialmente. As nuvens passam como um grande estouro de elefantes. Os raios cortam o céu num espetáculo apocalíptico. O vento brinca de correr e leva consigo as roupas dos varais. E assim ela vem, impiedosa e vigorosa, a chuva não encontra obstáculos capaz de detê-la.
“Isso deveria ajudar”, pensa Selma. Mas não. Assim como a tempestade aprisiona os moradores do cortiço dentro de seus pequenos cômodos, Selma se encontra presa dentro de seu carro. A chuva seqüestra seus pensamentos, e a faz refém da longa jornada que a levou até ali. Ela mantém as mãos presas ao volante e o carro ligado.
- Você não precisa fazer isso. Vá embora. – pensa. Um raio mais violento se desgarra de seus irmãos e brilha diante dela. – O que eu estou fazendo aqui?
Uma lata de lixo cai perto do carro. Selma olha pelo retrovisor. Não passa de um bêbado tentando encontrar um esconderijo para fugir ao bombardeio que vem do céu. Selma procura o celular dentro da bolsa, num gesto automático, confere se há chamadas não atendidas. Mantém o aparelho ligado como se esperasse uma ligação. “Você não pode ter medo dele. Olhe pra você, acredite em você mesma”.
O celular é levemente abandonado no painel, ele parece olhá-la como uma criança de rua. Selma respira fundo, passa a mão nos cabelos castanhos. Com a expressão cansada das últimas noites mal-dormidas, procura um cigarro na bolsa. O maço está vazio. Encontra o bloco de anotações, folheia algumas páginas e uma em especial a detêm:
“O homem mais sábio da terra”.
“Isso deveria ajudar”, pensa Selma. Mas não. Assim como a tempestade aprisiona os moradores do cortiço dentro de seus pequenos cômodos, Selma se encontra presa dentro de seu carro. A chuva seqüestra seus pensamentos, e a faz refém da longa jornada que a levou até ali. Ela mantém as mãos presas ao volante e o carro ligado.
- Você não precisa fazer isso. Vá embora. – pensa. Um raio mais violento se desgarra de seus irmãos e brilha diante dela. – O que eu estou fazendo aqui?
Uma lata de lixo cai perto do carro. Selma olha pelo retrovisor. Não passa de um bêbado tentando encontrar um esconderijo para fugir ao bombardeio que vem do céu. Selma procura o celular dentro da bolsa, num gesto automático, confere se há chamadas não atendidas. Mantém o aparelho ligado como se esperasse uma ligação. “Você não pode ter medo dele. Olhe pra você, acredite em você mesma”.
O celular é levemente abandonado no painel, ele parece olhá-la como uma criança de rua. Selma respira fundo, passa a mão nos cabelos castanhos. Com a expressão cansada das últimas noites mal-dormidas, procura um cigarro na bolsa. O maço está vazio. Encontra o bloco de anotações, folheia algumas páginas e uma em especial a detêm:
“O homem mais sábio da terra”.
Semana do Louco
Certa vez o David me contou uma de suas muitas idéias que passou por peça, música, filme, poesia, mas acabou na gaveta, por enquanto... tempos depois, lembrei vagamente da idéia e usei pra escrever um conto pra uma matéria da faculdade. Acho que a professora não entendeu muito bem, mas eu passei.
“O Louco” é uma minissérie em 10 capítulos (diários) inspirado nos poemas “Solidão” de David e em contos do livro de Khalil Gibran “O Louco” (Ed. Aquariana, 2003, SP), mais precisamente em: Como foi que enlouqueci; Os Sete Eus; O Coveiro; O Deus do Bem e o Deus do Mal; Crucificado; e O Astrônomo.
Espero que gostem.
“O Louco” é uma minissérie em 10 capítulos (diários) inspirado nos poemas “Solidão” de David e em contos do livro de Khalil Gibran “O Louco” (Ed. Aquariana, 2003, SP), mais precisamente em: Como foi que enlouqueci; Os Sete Eus; O Coveiro; O Deus do Bem e o Deus do Mal; Crucificado; e O Astrônomo.
Espero que gostem.
2.02.2007
Blake: pra fechar
Existe uma curta anedota da vida de Blake, ela se refere a uma afirmação feita por sua esposa Catherine. Os críticos interpretaram-na como uma afirmação da pobreza material de Blake, mas para os Sahaja Yogis ela significará algo bem diferente. Um visitante em sua casa, não muito polido, mencionou a falta de sabão. Catherine, uma mulher simples, respondeu: “A pele do Sr. Blake não suja”.
2.01.2007
Mahabharata: Cap. 09
O poeta, que Shri Ganesha chamava de Filho do Nevoeiro, fechou-se em silêncio por um instante. Procurou forças interiores. E em torno dos três, pela simples força do poeta, a paisagem havia se transformado. O menino estremeceu e aproximou-se de Vyasa. Encontravam-se no limite das neves eternas, sob um vento gélido e um céu negro, rasgado por raios constantes.
Lá estava Pandu e suas esposas. O rei chorava por viver sem filhos. Kunti confessou-lhe possuir um mantra que lhe dava o poder de invocar um deus, a sua vontade, e ter deste um filho. Sem nada revelar do abandono de Karna. Pandu pediu para que invocasse Dharma, o deus da justiça, da lei, da marcha correta do mundo. Kunti recolheu-se, pronunciou seu mantra, e no mesmo instante, a luz dissipou as trevas e um recém-nascido apareceu-lhes. Yudishsthira, filho de Dharma, nascido para ser rei. Inclinaram-se com respeito diante de seu primeiro filho.
- Dá nos outro filho – disse Pandu – agora invoca Vayu, deus do vento.
E assim ela o fez. Da luz surgiu Bhima. Kunti, ao estender os braços para ele, fez um movimento em falso. O menino caiu sobre um rochedo, mas foi o rochedo que se partiu. Bhima é de força incomparável, o sustentáculo da família. Quebrou um grosso galho de árvore para fazer uma clava, e sentou-se do lado do irmão mais velho.
Então, Kunti tomou a iniciativa e chamou Indra, o rei dos deuses. E o terceiro filho surgiu, era Arjuna, o belo e calmo nobre, o melhor dos príncipes. Nesse momento, Madri também pediu o mantra, para poder ela mesma gerar filhos divinos. Kunti concordou e o sussurrou em seu ouvido. Madri invocou de uma vez os gêmeos de olhos dourados Aswins, e fez nascer os gêmeos Nakula e Sahadeva, os prudentes.
Yudishsthira, Bhima, Arjuna, Nakula e Sahadeva. Cinco filhos de deuses, que dali em diante seriam chamados Pândavas, os filhos de Pandu.
Continua: Os portadores da violência
Lá estava Pandu e suas esposas. O rei chorava por viver sem filhos. Kunti confessou-lhe possuir um mantra que lhe dava o poder de invocar um deus, a sua vontade, e ter deste um filho. Sem nada revelar do abandono de Karna. Pandu pediu para que invocasse Dharma, o deus da justiça, da lei, da marcha correta do mundo. Kunti recolheu-se, pronunciou seu mantra, e no mesmo instante, a luz dissipou as trevas e um recém-nascido apareceu-lhes. Yudishsthira, filho de Dharma, nascido para ser rei. Inclinaram-se com respeito diante de seu primeiro filho.
- Dá nos outro filho – disse Pandu – agora invoca Vayu, deus do vento.
E assim ela o fez. Da luz surgiu Bhima. Kunti, ao estender os braços para ele, fez um movimento em falso. O menino caiu sobre um rochedo, mas foi o rochedo que se partiu. Bhima é de força incomparável, o sustentáculo da família. Quebrou um grosso galho de árvore para fazer uma clava, e sentou-se do lado do irmão mais velho.
Então, Kunti tomou a iniciativa e chamou Indra, o rei dos deuses. E o terceiro filho surgiu, era Arjuna, o belo e calmo nobre, o melhor dos príncipes. Nesse momento, Madri também pediu o mantra, para poder ela mesma gerar filhos divinos. Kunti concordou e o sussurrou em seu ouvido. Madri invocou de uma vez os gêmeos de olhos dourados Aswins, e fez nascer os gêmeos Nakula e Sahadeva, os prudentes.
Yudishsthira, Bhima, Arjuna, Nakula e Sahadeva. Cinco filhos de deuses, que dali em diante seriam chamados Pândavas, os filhos de Pandu.
Continua: Os portadores da violência
