12.22.2006

Até o Ano que vem

Muito bem, assim se encerra 2006. Um ano complicado em vários aspectos: o Vasco perdeu a Copa do Brasil e a seleção o mundial... hahahaha. Mas também um ano de muitas cabeçadas, introspecção e aprendizado. Então, que os erros desse ano sejam boas lições pro ano que vem, e que 2007 seja mais profundo e produtivo.
Vou dar uma afastada legal do computador por esses dias, e respirar um pouco de ar puro. Em janeiro voltamos com mais séries, mais contos, curiosidades e cultura. Porque enriquecer a cultura sahaja e despertar o artista iluminado que está dentro de você é o nosso maior objetivo... mais ou menos por aí.
Até o dia 2 de janeiro!!!
Se cuidem!!!

Feliz Natal e Boas Festas!

12.21.2006

Mahabharata: Cap. 04

Vyasa, Shri Ganesha e o menino viram um cortejo fúnebre que avançava em direção ao rio, em cuja margem erguia-se uma fogueira. Os servos levavam o corpo. Satyavati seguia em prantos, acompanhada por Bhishma e a as duas princesas agora viúvas.
- O jovem rei morreu. – disse Vyasa.
- Sem filhos, sem descendentes! – exclamou o menino.
Os três caminharam em direção à pira que estava sendo acesa.
- Mas então, sem filhos, essa narrativa não pode continuar. – disse Shri Ganesha.
Bhishma aproximou-se deles, saudou os três. E perguntou a Vyasa:
- E agora, quem poderá gerar esses filhos?
- Ora Bhishma, tu mesmo! – gritou Shri Ganesha. – És o único homem da família. Esqueça teu voto pelo menos uma vez.
- Não. Longas noites lutei contra a tentação e triunfei. Hoje, tenho quase cinqüenta anos. Quebrar esse voto seria matar meu espírito. Não quero mais uma palavra sobre isso.
Shri Ganesha fechou o livro, colocou a presa no lugar e preparou-se para ir embora:
- Assim, o grande poema do mundo está terminado.
Satyavati o deteve. Estendeu a mão para Shri Ganesha e disse:
- Não te vás. Vyasa, tu mesmo deves fazer isso.
- A rainha tem razão. Vyasa é seu primeiro filho, ele é da família. – disse Bhishma.
- Se as princesas suportarem seu cheiro azedo e seu corpo enlameado, os filhos que terão serão admiráveis. Meu filho, o destino de toda uma raça depende de ti, agora. Vá, continua tua obra.
Vyasa concordou, e assim, partiram ele e a mãe para o palácio, onde iria encontrar com as viúvas.


Continua ano que vem...
"Vyasa prossegue"

12.20.2006

Jogo da Vida


O último da série "agradecimentos", clique na imagem para ampliar.

12.19.2006

Carioca: Frases Célebres

A última do ano do Carioca é uma compilaçào de pérolas que ele pronunciou ao longo dos anos...

“Nesse coletivo não aparecem buscadores, apenas alguns poucos esforçados”.
Quando questionado sobre os novos que surgem no coletivo.

“Não sou eu que devo temê-las, são elas que devem ter medo de mim”.
Falando acerca das negatividades.

“Eu sou seu pior pesadelo”.
Encarando o ego no espelho.

“Eu adoro, só tem um defeito: falta a praia”.
Sobre os seminários realizados em São José – SP.

“Esse Grande Mini-mini é horrível, mas que cara feio, bicho nojento, assusta qualquer um”.
Conversando com Peter, ator que interpretou o próprio Grande Mini-mini.

“Sabia que seminário durante a lua cheia não ia dar certo, eu to sentindo muito ataque no nabhi”.
Depois de comer apenas 10 bolinhos na sobremesa.

“Esse cara é bom”.
Definindo a apresentação de Seu Toninho de Catanduva.

“Daqui a pouco você vai é pro limão”.
Comentando sobre a péssima aparência do velho yogui Sombra.

“Sai de fininho que o líder Macleiny ta vindo pra cá, e quando ele vem sorrindo é trabalho na certa”.
Avisando outro Yogui sobre o comportamento do lide.

“Quando você está com fome, você sente um vazio e experimento o estado das ilusões, daí precisa comer pra preencher o oceano”.
Explicando o significado do nome Void para um novato.

12.18.2006

Poesia: Tributo à Pureza

Eu A vi no olhar da criança
que corria para o pássaro pegar.
Eu A vi no brilho da manhã de sol,
festejando o início do verão.
Shri Nirmala, desperta na humanidade o que estais despertando em mim.

Sou um rio que corre
ao encontro do Teu oceano de amor
e nele quero a identidade perder.
Me proteja Shri Nirmala, me acolhe.
Shri Nirmala, desperta na humanidade o que estais despertando em mim.

O dia, Shri Nirmala
que os homens puderem Te entender,
não haverá mais drogas, ciúmes e nem discórdia.
Só flores, só paz.
Pois a inocência brilhará com todo seu esplendor
E só Tu, Shri Nirmala.
Shri Nirmala,
Doce pureza reinará.
Maria de Lourdes Mello

Última Semana

Muito bem blogueros, essa é a última semana de atualizações do blog em 2006. Ia fechar o ano com Abraham Lincoln, mas agora a atenção começa ficar voltada pro consumo, e ia ser complicado acompanhar o trabalho dele de forma correta. Por isso, vamos manter uma semana normal. E voltamos no dia 02 de janeiro de 2007, aí sim, com a semana do Lincoln (Ah, não precisa fazer cara feia. O SBT muda de programação todo dia a mais de 20 anos e nem por isso você deixa de acompanhar o Chaves e o Chapolin Colorado). Se estiverem de bobeira por aí nessa semana de festas, confiram o nosso arquivo.

12.16.2006

Casa Santa: Cap 7

Sanfoneiro: Por que estrada mais comprida? Por que légua tão tirana? Ai se eu tivesse casa, ainda hoje eu retornava. Quando o sol tostou as folhas e bebeu o riachão, perdi todas as esperança e a fé na oração. Tô vortando estrupiado, mas aprendi uma lição: não se abandona o certo, não se vende o coração. Não importa o quanto se ande, por esse imenso sertão. As porteiras estarão sempre abertas, pra ter de volta um bom irmão.
Sanfoneiro se afasta. Sons de risos de crianças.
João: Mas de onde vem isso? Eu conheço essa brincadeira.
Pai de João: Bem vindo de volta João, encontrou otras filicidades por aí?
João: Pai?! Eu cheguei em casa?! Não, não encontrei nada como isso aqui... Pai, quem são aquelas crianças tão alegres?
Pai de João: São seus irmãos.
João: Mais tantos? Tão crescidos, faz tanto tempo que nem me alembro direito.
Pai de João: E da sua mãe, você se alembra?
João: Claro que alembro da minha mãezinha. Como ela está?
Pai de João: Vai lá dentro, que ela ta te esperando.
Som de trovões e de chuva.
João: Oh, minha mãe, que saudade grande, perdoa esse fio, que saiu por aí sem se dar conta do mal que estava fazendo a ele mesmo. Recebe eu de volta, e por tua graça, trás pra cá otros tantos fios teu que eu vi perdido por aí, rodando o mundo sem direção, sem esperança. Vagando na seca, buscando essa chuva de bênção que aqui nunca para de caí. Recebe a todos nessa tua casa santa, feita de amor e muita filicidade.

FIM

12.15.2006

Casa Santa: Cap 6

Matador entra em cena.
Matador: Mas ora, senão é o pequeno sonhador. Já encontrou algo de bom?
João: Continuo buscando.
Matador: Tá variando. Caso perdido. Mas diga lá, viste um ladrãozinho chulerento, feio feito o cão e magro feito minhoca? Porque o cheiro eu mesmo cafunguei.
João: Vi sim, foi por aqueles lados, mas não está caminhando não.
Matador: Como assim? O gatuno agora voa?
João: Digamos que morto não anda, é tudo que eu posso dizer. Não sou bocudo pra delatar os outros.
Matador: Pois está bom demais. Morto ou vivo, eu acho e encho de bala. Inté sonhador.
Matador sai de cena. Entra o sanfoneiro.
Sanfoneiro: Não pode ser. Que vejo aqui? Tristeza?! Melancolia?! Está na hora de transformar isso tudo em alegria. Vamos lá meu fio, felicidade.
João: Felicidade?!
Sanfoneiro: Isso mesmo, felicidade. É o forró do São João.
O sanfoneiro toca e começa a festa. João dança com Maria Bonita e ela dança com outros vaqueiros. Todos passam dançando e vão embora.
João: Mas onde? Cadê ela? Cadê a festa?
Sanfoneiro: Tudo que é bom acaba, meu fio. O sanfoneiro toca bem mas tem que descansar, acabou a comida, acabou a bebida, acabou a festa.
João: E a Maria Bonita? Onde ela está?
Sanfoneiro: Foi embora.
João: E nosso amor verdadeiro, e a nossa alegria tão pura?
Sanfoneiro: Acabou. Mas ligue não, no próximo rastapé tu arruma outra Maria.
João: Mas como assim? Por que tem que acabar se foi tão bom?
Sanfoneiro: Sei não, só sei que é assim. Essas moreninhas são namoradeiras. Simbora seu minino. Amanhã tem outra festa pra nós animá, e lá eu te apresento a fia do coroné, uma belezura. Daí ocê vai ficar alegre de novo.
João: Não, eu tô confuso. Pra mim, a alegria não devia de ter fim...
Sanfoneiro: O mundo não fui eu que criei seu minino, mas ele cheio dessas duplicências, dia e noite, homi e muié, feio e bonito... alegria e tristeza. Pruquê? Sei não, só sei que é assim. A nós, que tamô nessa seca, só cabe rogar a Deus e esperar a próxima chuvarada. Quando tem festa, nós dança alegre, quando tá triste, nos entristece. Não existe outra solução.
João: Existe sim, minha mãezinha ensinava nós a tá sempre alegre. Mas eu duvidei e resolvi sair de casa pra encontra outras maneras de ser feliz. Depois de tanto tempo na estrada, a única filicidade que conheço vai imbora, é passageira. Me escapa como um passarinho fujão. Acho que nunca mais vou pudê de ouvi aquelas risadas gostosas que tinha lá em casa. Tô perdido.
Concluí amanhã...

12.14.2006

Mahabharata: Cap. 03

Bhishma havia jurado nunca conhecer o amor de uma mulher, e como recompensa recebeu o poder de morrer no dia em que ele próprio escolhesse. O menino, que ouvia a história ditada pelo sábio Vyasa, estava fascinado:
- E isso é possível?
- Era possível naquele tempo. – respondeu Shri Ganesha, molhando a presa no tinteiro. Vyasa retomou a narrativa.
Shantanu e Satyavati tiveram dois filhos. O primeiro morreu em combate, depois morreu Shantanu. Só restando um filho, franzino e de pouca saúde. Quando este atingiu a idade de casar-se, Bhishma decidiu conquistar-lhe uma esposa. Afinal, era necessário força e destreza, para superar os adversários e vencer um torneio no qual se recebia a mão de uma princesa. Na verdade, Bhishma retornou com três esposas.
Ao retornar para Hastinapura, Bhishma percebeu que uma das princesas, Amba, chorava em silêncio. Ele indagou o motivo da tristeza e ela respondeu:
- Antes desse torneio no qual me ganhaste, eu já havia escolhido meu esposo em segredo. É o rei Salva, ele também me ama. Por favor, deixa-me ir ao seu encontro.
Bhishma colocava acima de tudo a justiça, esse desígnio de viver segundo a lei universal, segundo o dharma. Assim, respondeu após uma breve reflexão:
- É justo, Amba. Podes partir.
Ela partiu imediatamente para junto do homem que considerava seu esposo. Entretanto, ele a recusou.
- Bhishma te conquistou. Não posso deixar em meu palácio uma mulher que pertence a outro. E eu temo a Bhishma, ele é muito poderoso.
- Ele não me tocou, e me libertou.
- Vá embora, pra mim tu não existes mais.
Amba não insistiu, o medo de Salva, fez por desaparecer o amor que residia no coração da jovem. Sem lugar para onde ir, voltou para Bhishma e pediu a ele que a desposasse. Todavia, Bishma contou-lhe seu voto, e a declarou livre. Ao que Amba respondeu energicamente:
- Ouve o que farei: andarei sempre em frente, em farrapos, mendigando, e não terei outro pensamento senão o de encontrar alguém que se bata contra ti e te mate. Não me esqueças Bhishma, carrego tua morte.
Vyasa franziu a testa. Bhishma era teoricamente imortal, mas e agora? O menino olhou para a floresta, viu ao longe uma moça que andava a paços largos. Sumiu, sem olhar para trás.


Continua na próxima quinta: O fim do Poema?

Casa Santa: Cap 5

Coro: Oh minha nossa senhora, bênçoe nós, seus bons fiinhos que rogam a vós. Recebe essa alma com muito amor, pois a ti, louvou-te com muito ardor.
Ladrão: Ai diaxo, que o véio morreu antes da minha chegada.
João: Bem feito.
Ladrão: Mas o carcamanho ta gordinho, parece inté mais um porquinho, que o véio ossudo avarento do qual dizia o testamento.
João: E ele deixou testamento?!
Ladrão: Uma saca de alpiste pro canário, e uma conta pendurada no seu Januário. O tesouro, só Deus sabe onde ele guardou, se bem que desconfiado agora estou.
Voz do Raimundo Matador: Tô sentindo cheiro de ladrãozinho frouxo. E tá perto.
Ladrão: Ai meu sinhô das encruziada, salva esse teu fio de mais essa enrascada. Se tinha uma desconfiação, tiro a prova e quem sabe encontro a salvação. Alto lá meu povo. Quem é o pobre coitado que carregam com todo o cuidado?
Coro: O nome era seu Manuel, viveu a vida economizando posses, mas hoje se encontra as portas do céu, como um qualquer.
Ladrão: Me disseram que o difunto era rico e tinha como qualidade um bom coração, é verdade tal afirmação?
Uma pessoa se destaca do coro: Bom coração?! O velho era um traste pulguento, a essas horas ta é queimando no fogo dos inferno. Se o sinhô quer sabê, nem dinheiro pro enterro o sovina deixou.
Ladrão: Que triste situação, ando por esse mundo e só vejo desilusão. Ai, meu pai, quero morrer. Mas não tenho quem possa me socorrer. Daria vinte mil réis, para os amigos féis, que sem interesses ou julgamentos de critério, carregassem meu corpo em tal bela procissão, até o cemitério.
O coro larga o corpo do velho no chão
Coro: Estamos prontos.
Ladrão: Mas que almas puras e belas me emocionam de verdade. (abraçando e recolhendo o dinheiro do velho morto) E quanto a ti meu véio, agora não necessitas mais de tal vaidade. Oh, que emoção, já sinto parar meu coração.
Voz do Matador: O cheiro tá perto, esse ladrão num me escapa.
Ladrão: Irmãos, carreguem esse corpo cheio de dor, antes que eu dê de cara com esse tal de Raimundo Matador. Pro cemitério sem mais demoras, que lá darei-lhes minhas últimas esmolas.
O coro levanta o ladrão e o carrega cantando.
Coro: Pobre homi, cansado estava de ver tanta maldade, entregou-se a Deus, e deu sua vida com grande fidelidade.
Ladrão: Inté moleque.
Cortejo sai de cena.
Continua amanhã...

12.13.2006

Casa Santa: Cap 4

Ladrão: Viver de roubo não é fácil. Já até pensei em largar a vida do crime, mas situações como essa sempre me fazem cair em tentação.
Ladrão pula diante de João.
Ladrão: Olá meu bom homi, caminheiro dessa imensidão. Jozimar é a minha graça, coletor de impostos minha profissão.
João: Dia, Seu Jozimar. Meu nome é João, ando por este sertão, atrás de alguma filicidade boa.
Ladrão: Me contaram com tristeza, que por essas bandas vive um véio doente com sua riqueza. Espera com pesar a hora de esticar o couro, e eu o momento certo de roubar-lhe o ouro... quer dizer, cumprir minha tarefa. Pois mesmo diante da pior situação, cabe ao coletor de impostos zelar pelo bem de nossa nação.
João: O ouro.
Ladrão: Sim... não. Bem, como sabe?
João: Já me disseram o mesmo. Que o ouro é o bem maior.
Ladrão: Sábio homem que a ocê disseste, e quem foi o homi que tal bem fizeste?
João: Um tal de Raimundo Matador.
Ladrão: Raimundo Matador?!
João: Anda por essas bandas procurando um ladrãozinho que não vale um tostão furado, disse que quando pegá-lo, o cabra vai virar comida de urubu, pendurado pelas orelhas na caatinga e com as tripas...
Ladrão: Chega!!! Já ouvi demais, e esses problemas não me interessam, rapaz. Venho nesse momento, perguntar como anda o veio mulambento?
João: Como sabe que estive com ele?
Ladrão: Foi o que disseram por aí.
João: Mas eu não falei com ninguém sobre isso.
Ladrão: Ah que horror, esse minino enlouquece qualquer bom trabaiador. Dexê de me apoquentar que eu tenho uma grana pra abocanhar. E saiba que muito bem lhe faria se deixasse essa busca de lado e corresse atrás da sua quantia.
Cortejo fúnebre vem trazendo o corpo do velho avarento.
Continua amanhã...

12.12.2006

Carioca: to no blog

Carioca e Jack Maromba estavam navegando na Internet. Quando o primo sarado do bronzeado retrucou:
- Pô, primo. Depois que eu comecei a meditar, não tô mais aguentando ver qualquer porcaria não. Acho que eu tô ficando sutil.
- É verdade. – completou o garoto esperto – até esse negócio de Internet já ta sem graça, não tem nada de bom pra ver...
- Epa, calma lá. – disparou o selvagem dos tatames – Isso porque tu não conhece o blog da Yuva Universal, é cultura e conhecimento sahaja na linguagem que a gente entende, tá ligado?
- Puxa primo, você está se aprofundando mesmo.
E lá foram os dois ler os capítulos de Casa Santa. Na verdade, o Carioca de hoje foi curto pra não atrapalhar a série... como diria o bronzeado: “foi a maior forçassão”.

Casa Santa: Cap 3

Velho Avarento está num canto do palco gemendo.
Avarento: Ai de mim, meu Deus, ai de mim, pobre devoto. Cuida desse homi, nos seus últimos momentos de vida, enquanto tenho poder sobre o que é meu, e posso suplicar-te por tua proteção. Ai de mim, meu Deus, ai de mim.
João: O sinhô ta passando mal? O sinhô ta carecendo de ajuda?
Avarento: Quanto ocê cobra pra ajudar?
João: Pra ajudar?! Nada ué. É ajuda.
Avarento: Nada?! Ai de mim, meu bom Deus, ai de mim. Mandaste por misericórdia um anjo celeste, ou então dei sorte, e me encontro diante de uma besta quadrada. O minino faz o que da vida?
João: Ando o mundo atrás de alguma filicidade?
Avarento: Sei. Estou muito doente, e em breve partirei desta pra melhor. Mas tenho medo. Sempre andei muito preso a esse mundo de posses, tenho receio de como será a vida do outro lado.
João: Isso só quem foi que pode dizer.
Avarento: Pois então, te pago uma boa quantia pra ir na frente, e voltar pra me contar como é a terra do pé junto. Quantia boa mesmo, metade na ida, e metade na volta, mas precisa me dizer se lá eu posso levar a minha riqueza. E quem sabe você num encontra felicidade por lá.
João: Sai pra lá, véio avarento nojento. Onde já se viu vortá do mundo dos mortos?
Avarento: Ai de mim, meu Deus tirano, ai de mim. Não há homi nesse mundo que queria ajudar um velho moribundo e doente. Ofereço aquilo que mais amo, parte da minha riqueza, mas ainda assim, eles recusam. Será possível que meus fios, aquela corja de abutres famintos, tenham envenenado o mundo contra mim. Sim, tenho certeza. Todos devem estar esperando meu fim, para repartir o que melhor vai sobrar do véio, o ouro. Pois saibam que nada há de sobrar, vou esconder tudo debaixo da roupa, e levarei comigo o que é meu, fruto do meu trabaio, do meu sacrifício, seja para o céu, ou para o inferno. Xispa moleque, anda que de ti não careço de mais nada, e fica sabendo duma coisa, vivi longos anos e pela minha experiência posso te dizer, filicidade não existe. Nem com a minha pequena fortuna, que tanto prezo, sou feliz. Na verdade, ela me afasta de todos. Anda, vai te embora daqui, antes que te envenes desse ouro, que é lindo e precioso, mas é meu.
João sai andando.
Continua amanhã...

12.11.2006

Casa Santa: Cap 2

Jangadeiro entra em cena.
Jangadeiro: Acho que to vendo terra, acho que to. O companheiro aí adiante, tem porto aí pra eu atraca minha jangada?
João: Porto? O sinhô ta em terra firme.
Jangadeiro: É cego como os outros. Companheiro, já me disseram isso, mas eu num vo disisti. Só atraco minha jangada quando chega na praia de mar azul. E pra isso, já rodei esse marzão todo.
João: E ainda num acho a tal da praia?
Jangadeiro: Ainda não.
João: Mas se o sinhô já rodou o mundo todo, e inda num encontro é pruque essa praia azul num existe.
Jangadeiro: Num fale besteria minino, ainda num encontrei, mas vo encontra.
João: E o sinhô podia me dizer se o mundo é grande
Jangadeiro: É enorme companheiro, cheio de esquisitice. Vi homi morando em cubo de gelo, e camarada cumendo com dois palito. Ocê num sabe, mas eu to rodando faz tempo. Deixei a muié, mas meus dois minino, e prometi vorta só quando achasse minha praia.
João: Eu também acabei de sair de casa, deixei pai, mãe e irmãos pra conhecer otras filicidades por aí.
Jangadeiro: Companheiro, qué um conselho de lobo veio do mar? Se tu ainda sabe o caminho, vorta pra casa qui é bem mió. Se eu pudesse fazia o mesmo, o pobrema é que eu perdi o caminho faz tempo. E agora, eu fico rodando, rodando e num posso para. Otras filicidades esse mundo tem sim, mas eu posso te garantir, que nenhuma é tão boa quanto a que eu tinha em casa. O cheiro da comida na panela, a rede dispois do armoço, o disco na vitrola... se eu fosse ocê disistia.
João: Disistir? Mas e a vontade de alcançar o meu sonho?
Jangadeiro: Companheiro, sonho é bom pra quem vivi drumindo. Pra que sonhar, se a vida acordado é bem mió? Inté, companheiro, e boa sorte na sua escolha.
Jangadeiro sai. Matador entra em cena.
Matador: O rapazinho pensa que vai adonde?
João: Desculpe, eu conheço o sinhô?
Matador: Mas ora que o moleque é cheio de atrevimento, ta querendo parti mais cedo. Primeiro ocê se apresenta e diz o rumo, dispois eu dicido se te encho ou não de chumbo. Pois saiba que deu o azar de cair no caminho de Raimundo Matador.
João: Meu nome é João, e não quero cria atrevimento não sinhô. Tô em busca de otras filicidades diferentes das que eu tinha em casa.
Matador: Filicidades? Se tinha em casa entonce saiu de lá pruquê? Nesse mundo, filicidade num é capim não moleque, que cresce em qualquer canto. Aqui fora só tem alegria de acordo. Ocê me paga um tanto, eu não te mato, nos fecha um acordo e fica tudo alegre.
João: Tenho dinheiro não sinhô.
Matador: Assim tu ta tirando a minha alegria. Meu fio, como ocê qué encontra filicidade sem dinheiro? To vendo que ocê num vale nem o preço da bala, docê a natureza mermo da cabo.
João: Mas lá em casa nos era feliz com dinheiro poco.
Matador: Mas isso era na sua casa, infiliz. Na rua não. Mas o menos na tua idade, larguei a porquera que era lá em casa, e decidi cê filiz também. Mas só encontrei alegria de acordo. Os amigo era de acordo, a muié era de acordo. Inté o dia que ela dicidiu fazê acordo com outro cabra, daí eu me tornei matador. E agora faço acordo com os coroné da região. Filicidade num dá não, mas rende uma alegria e tanto. Nunca farta amigo, nem muié. Mas deixemos de proza. Ocê hoje teve sorte, tô ocupado atrás dum cabra safado que roubou coroné Firmino e num vô perde meu tempo com muleque de bolso vazio. Vorta pra casa minino, que outro matador pode num te da essa colé de chá.
Matador sai de cena.
Continua amanhã...

12.10.2006

Casa Santa


PERSONAGENS:
1- João
2- Pai de João
3- Jangadeiro
4- Matador
5- Velho Avarento
6- Ladrão
7- Sanfoneiro
8- Maria Bonita
9- Tempo
10- Coro

O Tempo entra em Cena.
Tempo: Têm coisas que o homem vê, mas não enxerga. Têm outras que ele ouve, mas não escuta. E seja pro bem ou pro mal, caminha distante do seu verdadeiro ideal. Essa estória é sobre um jovem, realizado como você, que vive no paraíso. Mas o que fazer, se isso ele não pode entender? Tem a maior das alegrias, mas acredita que seu destino é rodar o mundo, conhecer os quatro cantos da Terra, pra aí sim, ter certeza do seu tesouro. Pobre do homem é um tolo. Troca o certo pelo duvidoso, numa aventura em que o herói nunca voltou glorioso. Mas deixe estar, porque eu, o tempo estou aqui pra isso. Meu trabalho é descortinar a verdade, de uma forma ou de outra.
Sai o Tempo. Entra João.
João: Ai de mim, pobre fio desse sertão. Nasci, cresci e hei de morrer aqui, nesse pequeno pedaço de chão. Nunca tive a alegria de ver o mar ou as luzes da cidade grande. Por um lado, me calo, e peço inté perdão a Deus por falar essas coisa. Porque muita gente queria puder de ter tudo essas alegrias que eu tenho em casa, uma mãe boa e generosa, um pai justo e trabaiador. Por outro lado, apesar de conhecer a filicidade, eu só vi a que tenho em casa. Minha mãe sempre nos disse que é a maior de todas. Mas como é que eu vou saber, se eu nunca vi outra? E se um dia meus filhos pregunta se existe outras filicidade, como é que eu vou puder responder? Filicidade só se conhece sentindo. Eu vi num livro que o mundo é grande, deve de ter muita filicidade por aí. Dizem que a cidade é perigosa, que o mar come gente, mas como eu vou saber se eu nunca entrei? Eu sei que a mãezinha ta certa, e que não deve de ter alegria maior que essa aqui de casa, como nas noites de festero e seresta. Mas o que eu preciso é ir lá longe, exprimentar de tudo, e aí sim, eu vou voltar com convicção de que terra boa é isso aqui. E vou poder até de ensinar os outro que num tem coisa melhor do que aqui.
Entra o pai de João.
Pai de João: João, meu filho. Tua mãe ta chamando pra hora da oração. Vem pra modo da gente começar, menino. Seus irmão ta tudo lá reunido, só falta ocê.
João: Hoje não pai, to partindo e num dá tempo deu orar não. Até breve, se preocupe não, seu fio volta pra orar cocês, mas quando eu voltar é com muito mais força.
Pai de João: Que deu nocê menino? Vai donde? E justo na hora da reza? Tu sabe que tua mãe num gosta de travessura nessas hora.
João: Não é travessura não, meu pai. Tomei uma decisão de gente grande, perciso conhecer o mundo, exprimentar toda as coisas que o homem fez por aí, pra modo de ter certeza verdadeira de que a filicidade que nós vivi aqui é realmente a maior filicidade desse mundo.
Pai de João: Ora, e ce dúvida disso? Já fui calça curta como ocê, já exprimintei um bando de porquera por aí. Nem tudo, pruque nem tudo que o homi faz vale a pena não. Mas posso te garantir, que nada se compara a paz desse nosso pedaço de chão.
João: Eu não duvido não, meu pai. Só quero ver com meus próprios olhos.
Pai de João: E pra que? Já num vi eu mermo, e num to falando procê? Se eu já cai daquela arvore espinhenta, pra que ce vai subi nela?
João: E se eu num cair?
Pai de João: Ela num deixa de ce espinhenta. Vale a pena desce todo lanhado?
João: O sinhô nunca vai entender.
Pai de João: Entendo mesmo não. Pra mim, isso é loucura de moleque abelhudo, isso sim. E da tua mãe, tu duvida dela?
João: Num duvido nem de um nem dotro, mas ela é uma santinha. Ela vai me entender.
Pai de João: Um bezerro desmamado que foge do pasto, isso num tem mãe que entenda, não. E João, meu filho, ocê vai te coragem de nos deixar?
João: Num to deixando não, meu pai. Quando eu voltar o sinhô vai me entender, inté.
João sai de cena.
Pai de João: Vai minino, as pernas são tuas, e eu num vo te amarrar. Não porque eu não queira, pruque por mim eu dava-lhe umas boas correadas. Mas tua mãe cria os filhos com amor, e não pela cinta. Mas fique sabendo duma coisa, o tempo ensina, e ele é professor exigente. Tu ainda volta, mas quando voltar, muita coisa vai ter mudado. Teus irmãos mais novos vão ser belos semeadores, cheios de vida, e tu um velho pedinte, um ignorante que rodou o mundo e não aprendeu nada de valor. Pruque foi atrás do tesouro que já tem em casa. Mas se preocupe não, tu vai ser bem recebido de volta, nosso amor por ti vai continuar enorme. Agora, tuas contas tu vai acerta, e não é comigo nem com a minha cinta, antes fosse. Vai ser direto com a tua mãe.
Pai de João sai de cena.
Continua amanhã...

Um Mês Blogando

Pois é, posso estar meio errado, mas estamos a um mês no ar, com atualizações diárias. Seguindo com as semanas temáticas:
- semana passada foi dedicada ao Nordeste. Essa semana conclui com a minissérie em sete capítulos “Casa Santa”. Uma peça de teatro escrita em 2005 para tratar do tema “os desafios da juventude na Sahaja Yoga” através de símbolos da cultura nacional.
- terça-feira tem as aventuras do Carioca.
- todas as quintas o Mahabharata em capítulos.
- e semana que vem é dedicada a Abraham Lincoln.
Fica ligado!!! Se você entrou agora acesse os arquivos 11.2006 e 12.2006 e saiba tudo que já rolou por aqui.

12.09.2006

Canção do Viajante


Espero que tenham gostado e se divertido. Porque a viagem deve prosseguir. E aquilo que aqui ouviram, e que de alguma forma absorveram, deve ser passado em outro lugar.

Minha vida é andar por esse país
Fazer desse povo muito mais feliz.
Vou dando a realização,
Cantando essa canção
Despertando aqui e ali
Os novos filhos da Mãe Devi

Chuva, sol, poeira e carvão
Longe de casa, mas com o coletivo no coração.

12.08.2006

Canção: Eterno Cantador


Essa canção marcou meu estudo de acordeom. Provavelmente, a letra se refere ao amor mundano e tal... o caso é que no momento em que eu a ouvi, o impacto foi outro. Foi o do amor divino realmente, do regozijo. Vi o cantador como alguém que conheceu e experimentou a verdade.
Uma vez eu gravei, e enviei pras irmãs rakhis, junto com outras músicas. Uma irmã do exterior ouviu a música, leu a tradução da letra, e disse que aquilo tinha chegado num momento muito importante. Ela estava perdendo a força da meditação, mas que a música incentivou ela novamente. “Quem viu a vida derramar amor, não vai deixar de ser um cantador”. E eu respondi a ela com a última estrofe da música.

Sanfona, chapéu e gibão
É um retrato desse meu sertão

De sol a sol por todos os cantos e lugares
Vou perseguindo esse destino meu
Sou cantador que faz da dor dos seus pesares
Uma lição de amor que aprendeu

Quem viu a vida derramar amor
Não vai deixar de ser um cantador

Se só um verso dos que eu vivo cantando
Fizer feliz o coração de alguém
Por esse pouco que eu vou acrescentando
Meu coração estará feliz também.

12.07.2006

Mahabharata: Cap. 02

O Primeiro Voto

Vyasa contou sobre o rei Shantanu e seu reinado de glória, sem atribulações nem miséria. Dizia-se que era amado pelos deuses, e que a deusa Ganga, a divindade do rio, havia dado-lhe um filho, Bhishma. O filho perfeito. Nasceu armado, invencível e sábio. Todos o amavam e viam nele um futuro rei glorioso. Shantanu passeava quase todos os dias às margens do rio. Até que encontrou Satyavati, filha do rei dos pescadores.
- Tua mãe? – perguntou o menino que acompanhava a história ditada pelo sábio Vyasa e escrita por Shri Ganesha.
- Certamente. – respondeu Vyasa. Shri Ganseha deu um sorriso e pediu ao sábio que continuasse sua narrativa.
Shantanu ficou inebriado com o perfume da moça e disse: - Há anos vivo sozinho cuidando do meu povo. Mas hoje, seu perfume me encanta. Satyavati sê minha esposa.
Ela ficou muito feliz, mas de acordo com as leis, Shantanu precisou ir primeiro pedir ao pai dela para que lhe desse a mão da filha em casamento. O pescador concordou, mas só fez um pedido:
- Exijo uma única promessa: o filho que tiverem será rei, depois de ti.
Shantanu tentou argumentar que já tinha um filho, Bhishma, e que ele seria o rei. Entretanto, o pai de Satyavati não quis conversa e o mandou embora. Shantanu voltou triste para Hastinapura, sua capital, e ficou abatido por alguns dias.
Bhishma percebeu sua tristeza e ao saber o motivo, foi conversar com o rei dos pescadores:
- Estás matando meu pai.
- Bhishma, tu és um grande filho, o primeiro entre os heróis. Ninguém te resiste, e os inimigos somem diante de ti. Mas se minha filha casar com teu pai, terão filhos e serão teus rivais e tu os detestarás.
Bhsihma compreendeu os argumentos do velho pescador. Depois de uma breve reflexão, declarou:
- Dou te minha palavra que o filho que nascer de tua filha será nosso rei, pois eu renuncio ao trono.
Satyavati estava radiante, já se via rainha. Mas o rei considerou um pouco mais:
- Falo-te com o coração de um pai. Presta atenção. Não duvido de ti, mas um dia terás filhos. E eles seguirão tua promessa? Serão fortes como tu, podem desejar conquistar o poder a força.
- Compreendo-te. – disse Bhishma – Para evitar qualquer briga e por amor a meu pai, pronunciarei a renúncia suprema. Escutem-me alto e claro: juro que jamais conhecerei o amor de uma mulher.
Ele repetiu mais uma vez. Shri Ganesha e o menino olharam para o céu, os deuses cantavam e os anjos jogavam flores sobre a terra. O próprio Bhishma levou Satyavati para o palácio de seu pai.


Continua na próxima quinta. Cap. 3 "O juramento de Amba"

12.06.2006

Poesia: Menino Ribeirinho


Ei menino!
Por que fica aí parado e não entra logo?
Tem medo de rio, menino?
Ora, que bobagem...
Vá e não fique aí pela metade!
Se o tempo tá quente
por que não banhar-se?

Ah, menino!
Se for por travessura tome cuidado.
Essas águas do rio vão e não voltam mais.
Outras podem até passar, mas num sei não...
É bom cair agora!

Vem, menino!
Vai ser bom! Não vai se arrepender.
O quê? Num é travessura não?!
É medo mesmo de imensidão?!
De fundura?
Que é isso, menino? Nós seguramos você!
Depois... depois você vai sozinho!
Vai ver que grandeza e fundura é bom.
Fica nadando que nem peixinho.

Sabe, o rio nos leva assim:
dança pra lá e pra cá.
Deslizando em suas águas caudalosas,
brincamos até não ver mais fim.
Êta menino, agora que é bom!
Quando chegamos, ficamos sem pensar,
e é tão bom, tão bom,
que até parece que sempre fomos mar!

Êta menino, vem!
Espera mais não!

Adélio Cunha

12.05.2006

Carioca: primo Martunino

Na onda das homenagens ao nordeste. Certa vez o Carioca foi visitar um primo baiano, o Martunino. Bem, todo mundo tem um primo baiano. O bronzeado achava que a Bahia ficava depois de Santa Cruz: “é só chegar no final da avenida Brasil e quebrar pra direita”...
26 horas depois de uma divertida viagem de ônibus com direito a gincana e amigo oculto, nosso irmão esperto chegou em Salvador. Foi recebido com festa. “Ô primo, sua chegada trouxe tanta alegria que a gente até antecipou o carnaval”.
- Mas ainda é dezembro!!! – assustou-se o Carioca.
- Mas já já, de mansinho, quando for vê, já é fevereiro - gritou Martunino no ouvido do bronzeado, os dois pulavam no alto do trio elétrico. Impressionado com a alegria da comunidade, o Carioca resolveu dar a realização ao primo, vizinhos e amigos.
- Mas tem que acordar cedo, é?
- Bem, nem sempre. É que meditar de vez em quando faz bem, tá ligado?! Energiza.
Mesmo um pouco contrariado, o pessoal aprendeu a meditar, sobre os chakras, técnicas... Quer dizer?! Vamos ser bem claros, aprendeu do modo do Carioca.
- De u bhanda a gente entende! – sorriu Martunino.
- Não, é o bhandan! É o de proteção, e não u de magia.
No começo ninguém queria nada. Mas passados dois meses, surpreendentemente, a galera se reuniu, abriu um centro, começou a estudar os chakras da apostila, consultar o Cyro na Internet, meditar juntos pela manhã e a noite. Tudo isso, sem o Carioca saber. Até o dia em que ele descobriu.
- Mas primo. Não sabia que vocês tavam praticando na moral. Maneiro. Mas por que toda essa dedicação? Vocês sentiram a paz no coração, a brisa e tal?
- Ô primo. Sentimos sim. Mas o que nós tamos querendo é um milagre. E já que nenhum terreiro ajudou, resolvemos levar a Yoga a sério e ver se resolve.
- E que milagre é esse? – indagou o bronzeado.
- Faz seis meses que você chegou. Come, bebe, dorme, tudo nas nossas costas e nem fala em ir embora. Só um milagre, só muita técnica e meditação pra te tirar daqui.
Uma semana depois, o novo coletivo fez uma vaquinha e mandou o Carioca de volta. E lá ficou um coletivo forte, dedicado e unido... belo trabalho Carioca.

Um dia no posto 9, em Ipanema, na beira do mar estavam o Carioca e Jack Maromba. Contemplavam a imensidão do oceano. E num lampejo de curiosidade, Jack indagou:
- Primo, se o maluco sai nadando em linha reta, vai chegar onde?
- Ô Jack, essa é mole. Em Miami. – disparou o Carioca.
- Miami?!
- Claro, essa galera aqui de Ipanema tá sempre em Miami. É pertinho. Até eu chego lá nadando. Quer aposta quanto? Casa duas araras aí que antes das cinco eu tô de volta.
E assim o Carioca pulou dentro da água. Agora, vejam o vídeo gravado por um cinegrafista amador que mostra e concluí essa incrível história. Clique no link.
http://oglobo.globo.com/blogs/largman/post.asp?cod_post=15152
O vídeo é mais uma contribuição da Cynthia.

12.04.2006

Resenha: Os Sertões

Essa saiu um tempo atrás na lista yuva.

Tudo que sabia sobre a Guerra de Canudos vinha do ginásio, quando aprendi que um beato maluco, que pregava contra a República, juntou um bando de sertanejos no interior do nordeste, e foi repreendido pelo exército. Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”, descreve Antônio Conselheiro como representante de uma raça atrasada, cheia de misticismo e crendice. Mas vejamos com mais cuidado:
Antônio cuidou das três irmãs e só se casou após tê-las encaminhado à vida de casada. Sua esposa tem um sério problema de muladhara. Envergonhado, Antônio se muda constantemente de cidade, até o dia em que sua esposa foge com outro. E ele desaparece. É dado como morto.
Após 10 anos, ressurgi na Bahia. Cabelos até os ombros, barba longa, olhar fulgurante. Andava sem rumo, esmolava somente para o dia, não guardava nada. Dormia no chão, ou em tábua de madeira, não aceitava cama. Sua chegada fazia com que cessassem as violas festeiras, impunha respeito. Era o Conselheiro para todas as decisões. Em pouco tempo, os primeiros fiéis o seguiram. Não os chamara. Chegavam-lhe espontâneo, felizes por atravessarem com ele as provações. Vinham rezando.
Despertou a inveja de muitos. Acusado de matar a esposa, proibiu aos fiéis que o defendessem, entregou-se. Pediu apenas para ser poupado a curiosidade do povo. Espancado sem queixar-se, ouviu ao julgamento sem pronunciar-se. Ao final, foi posto em liberdade, era inocente. Voltou para os discípulos na mesma data que havia prefixado no momento de sua prisão.
Percorreu o sertão de ponta a ponta. Passou um tempo em Chorrochó, sentado debaixo de uma árvore. À sua sombra curaram-se os doentes, e o povo começou a contar uma série de milagres. Por onde passava, deixava marcas, cemitério reconstruído, igreja reformada... do próprio livro:
“A sua entrada nos povoados, seguido pela multidão contrita, em silêncio, alevantando imagens, cruzes e bandeiras ao Divino, era solene e impressionadora. Paralisavam-se as ocupações normais. Ermavam-se as oficinas e as culturas. A população convergia para a vila onde, em compensação, avultava o movimento das feiras; e durante alguns dias, eclipsando as autoridades locais, o penitente errante e humilde monopolizava o mando, fazia-se autoridade única”.
Dos discursos, pouco se sabe. Dizem que era monossilábico, mas de frases de impacto. Falava com os olhos pro chão, mas ao levantá-los, ninguém ousava contemplá-lo. Sua pregação perturbou a igreja, foi caçado como fora da lei.
Acusado de pregar contra a República, foi perseguido com mais intensidade. Escolheu se isolar em Canudos no interior da Bahia. Canudos reunia gente da pior espécie. Euclides relata que a população de lá era a mais terrível do nordeste. Mas é difícil acreditar que essas pessoas tenham ficado após a chegada do Conselheiro. Proibiu a bebida, reabriu a igreja, trouxe consigo uma legião de fiéis. Estabeleceu a repartição do alimento e abstinência dos bens materiais. A população produzia para todos, e rezavam juntos todas as noites. Foram construídos ali 5.200 casebres, vilas inteiras vieram. Fazendeiros denunciaram a fuga dos empregados.
Conselheiro morreu junto com toda a população de Canudos que nunca se entregou, até o último “guerreiro”. Foram chacinados pela república, após quatro expedições do exército serem rechaçadas. Nunca ninguém perguntou no que acreditavam, nunca ninguém perguntou quem era aquele homem que seguiam, e porque abandonaram tudo para viverem com ele ali.


No mínimo interessante... não é mesmo?

Jogo da Vida

Os agradecimentos continuam... essa sequência tá me dando altas idéias pra uma série chamada agradecimentos ou perdão. Clique na imagem para ampliar.

12.03.2006

Poesia: O Viajante


De onde eu vim? Que importância isso tem?
Pra vosmicê, ou pra mim.
Podia se do norte e inté do sul,
Modos que eu to sempre camiando, pra encontra meu mar azul.
Mas eu sou fio da Terra, sertanejo valente.
O meu sangue também é vremeio, como o de toda essa gente.
E assim como eles, cansado da lida.
Rodei pelo mundo, tentando de qualque modo, construi minha vida.
Muié, fios pra criá, e uns pertence poco que nos ajudasse a vive.
Mas que nada, essa seca só fez nós luta pra num morre.
Rasguei essa caatinga de ponta a ponta, andando noite e dia.
E eis que sentada na sombra, encontro Maria.
Vestida de seda e cetim, briando mais que fogueira em noite de São João.
Seu perfume cheirava jasmim, me deu água pra bebe, e ainda estendeu-me sua mão.
Tirou-me da seca, soprou minha cabeça e me ensinou a canta.
Aprumado, todo alinhado, só queria dança.
Até que num baile, vi faces vazias, de todas as cor, enrugadas do sol.
A tristeza teimou, o coração apertou, e me fez indagá:
Ó Nossa Senhora, que tanto nos acude, e nos faz querdita,
Donde ta a senhora, pra esses fios predidos pode salva?
São fios da seca, fios da lida, fios da vida
Moram por aí, de qualque idade e profissão
Perdidos vagueiam, assim como um dia fui eu, nessa imensidão.
Ao longe, o vento soprou,
e a folha tão bela, da primavera, no meu ouvido falou:
“crê no que digo, estou contigo,
abre tuas mão, estufa teu peito e põe-se a canta,
a melodia dos anjos, que toda noite te canto, na hora de irte deitá”.

Retirante de passagem
Abertura do Seminário Yuva de 2005


Quarta Semana: Homenagem ao Nordeste

Tava tocando sanfona no coletivo, e um tio me disse: “ô menino, com essa sanfona, tu tem um compromisso muito sério com o nordeste”. Muito bem, então essa semana, além da programação normal (Carioca e Mahabharata), colocarei posts com a temática do nordeste brasileiro e a espiritualidade. Afinal, assim como o retirante foge da seca, o buscador também procura água, a água da vida.
E semana que vem, vou lançar a minissérie “Casa Santa”, em sete capítulos.
E pra saber o que rolou em novembro, basta clicar em “11.2006” em arquivos.

12.02.2006

La Pietà

Certa vez, perguntaram a Michelangelo porque ele esculpiu a imagem de Maria tão jovem em “La Pietà”. E ele disse: “aqueles que tem o amor de Deus, não envelhecem nunca”.

La Pietà foi esculpida por Michelangelo aos 25 anos de idade. A escultura se encontra no Vaticano. Marcinho me enviou uma impressionante apresentação de fotos da escultura em pps. O jogo de luzes é fabuloso. Quem quiser a apresentação, me escreva e eu envio...


Clique na imagem abaixo para ampliar. As fotos foram tiradas do pps.